CRÍTICA: A SOLIDÃO NA MULTIDÃO DE “ÃRRÔ

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

 

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SÃO PAULO – José Saramago disse, numa entrevista sobre o Twitter, que o microblog seria uma espécie de antecâmara do grunhido, que de degrau em degrau, de 140 caracteres a diante, perderíamos o dom de nos comunicar. É sobre a (im)possibilidade de intercomunicação que fala a peça escrita e dirigida por Vinícius Calderoni, com Thiago Amaral e Luciana Paes no elenco, e que segue temporada no SESC Belenzinho até 11 de outubro.

Dividida em três capítulos e com cenas avulsas, o espetáculo do Empório de Teatro Sortido é um coral cotidiano. Não, não coral. A palavra melhor talvez seja multidão. Em cena se apresenta uma multidão de tipos variados, de uma plateia de música clássica, até um casal no estacionamento, até um cachorro moribundo, até um garoto num planetário, até um corretor de imóveis, até a plateia do teatro, até…

É quase como ver a rua de cima com as pessoas passando e suas milhares de histórias, a um só tempo magníficas e desimportantes, fluindo pelo tempo e perdidas na cacofonia da multidão. Todos alheios ao outro com quem dividem o (e competem pelo) espaço urbano, mas similares na sua tentativa de se conectarem a algo ou alguém.

Parece uma tarefa hercúlea essa, a de criar no palco um mosaico de tipos que reflita a sociedade atual. Como falar da pequenez e da magia cotidiana do dia-a-dia? Indo na contramão de seu tema grandiloquente, a montagem acerta ao apostar no simples.ÃRRÃ

A arquitetura da peça é rigorosamente minimalista, tecendo com elementos precisos e discretos (a luz ou o praticável disposto no palco nu) uma rede de segurança onde os talentosos atores podem se jogar, alternando-se em diversos personagens, de ambos os gêneros, numa composição equilibrada que flerta tanto com o realista quanto com o caricato, tirando graça do grotesco de algumas figuras propostas mas, ainda assim, conseguindo conferir aos personagens certa humanidade.

Outro ponto fundamental do espetáculo é a dramaturgia verborrágica de Calderoni. Quando propus que o leitor pensasse nessa peça como uma multidão, gostaria que ele considerasse como parte desta turba o texto do dramaturgo e diretor.

O texto é tão caudaloso, e está constantemente em primeiro plano, que é possível sentir sua massa, seu volume. As palavras são uma entidade a parte, constituindo uma multidão que preenche a área cênica de parede a parede.

É interessante perceber que e, às vezes, a informação vem em tal quantidade e tal velocidade, que anestesia a plateia, fazendo com que alguns nacos dos monólogos maiores sejam perdidos. E isto não deixa de contribuir ao todo, já que num espetáculo que versa sobre a tentativa e incapacidade de se comunicar, é justo que a plateia seja desafiada a focar e a verdadeiramente ouvir o que está sendo dito no palco.

Tomando o caminho oposto do apontado por Saramago, Ãrrã (ou A Gente Sempre Tem Que Estar Em Algum Lugar ou Teatro do Indizível ou A Velha a Fiar ou Uma Ponte Para o Outro”) acredita que estamos fadados ao fracasso da comunicação não pelo nosso poder de síntese em 140 caracteres, mas sim pelo nosso medo do silêncio, de tempos quietos, pela nossa tentativa patética de construir pontes a partir de palavras que nunca darão conta de transmitir tudo aquilo que somos e que não cabe em verbo, sujeito e predicado.

Ficha Técnica

Texto e direção: Vinicius Calderoni. Elenco: Thiago Amaral e Luciana Paes. Assistência de direção: Guilherme Magon. Cenografia: Valentina Soares e Wagner Antônio. Iluminação: Wagner Antônio. Figurino: Valentina Soares. Desenho de som: Miguel Caldas. Preparação Corporal: Fabrício Licursi. Direção de produção: César. Ramos e Gustavo Sanna. Um espetáculo da Cia. Empório de Teatro Sortido com produção de Complementar produções Artísticas.

ãrrã
Até 11/10. Quinta a sábado, às 21h30 e domingos às 18h30.
Sala de Espetáculos II ( 80 lugares – acesso para pessoas com deficiência)
Duração: 60 min
Não recomendado para menores de 12 anos

Ingressos à venda pelo Portal Sesc SP (www.sescsp.org.br), a partir de 08/09/2015, às 15h30, e nas unidades, a partir de 09/09/2015, às 17h30:
R$ 20,00 (inteira); R$ 10,00 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante); R$ 6,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes [Credencial Plena]).

Sesc Belenzinho
Endereço: Rua Padre Adelino, 1000
Belenzinho – São Paulo (SP
Telefone: (11) 2076-9700
www.sescsp.org.br/belenzinho

Estacionamento
Para espetáculos com venda de ingressos:
R$ 6,00 (não matriculado);
R$ 3,00 (matriculado no SESC – trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo/ usuário).

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