CRÍTICA: A SUBVERSÃO DO MUSICAL EM “URINAL”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

Urinal%2c o Musical_2_Foto de Ronaldo GutierrezSÃO PAULO – Sucesso do Núcleo Experimental continua carreira no Teatro Porto Seguro. No espetáculo que fica em cartaz até 21 de abril, uma sociedade que se recupera de uma seca de décadas é controlada a partir do uso taxado dos banheiros.

É sempre um prazer ver o encontro de um bom texto com um bom grupo de intérpretes. É o caso de Urinal, o musical (com texto de Greg Kotis, música de Mark Hollman e letras de ambos), que encontra no Núcleo Experimental um potente representante em terras brasileiras.

A força desse encontro surge, sobretudo, do entendimento afiado que Zé Henrique de Paula, o diretor, tem do material original. A ironia, a metalinguagem e a atmosfera de brincadeira, de não se levar tão a sério do texto original reverberam na direção de Zé Henrique e no elenco afiado. O talentoso grupo de artistas não oferece ao público um musical grandioso, com grandes efeitos, trocas constantes de cenário e figurino, corpo de baile gigantesco e outros itens do checklist básico da Broadway. E isso é uma das melhores coisas da montagem.

O que Urinal faz é brincar com as convenções do teatro musical. Temos, então, a figura do narrador, à la Into The Woods e Cabaret – aliás, Bob Fosse é uma referência constante no espetáculo – que conversa com a plateia e expõe a arquitetura básica da dramaturgia: “agora teremos a apresentação do personagem xis”; “falaremos agora da penitenciária, mas só a mostraremos no segundo ato”; “eis agora o número musical que preara a plateia para o final catártico” e por aí vai. Temos também as músicas, que além de levar a história adiante, pegam ritmos e gêneros recorrentes na produção musical americana e os apresentam com uma levada farsesca, satírica. Há também o belíssimo cenário, que cumpre bem sua função: apresenta os locais onde a ação se passa, e é grande e detalhado o suficiente para impressionar – mas teatral o bastante para que as paredes chacoalhem quando um dos personagens tromba com ele, mantendo assim o ar mambembe que dá charme ao espetáculo.

A dramaturgia também é inteligente ao fazer piada dos clichês mais óbvios do gênero: a mocinha ingênua na verdade é obtusa; o mocinho idealista na verdade é precipitado; a cena onde os dois se apaixonam é nonsense e hilária. Além dos personagens, o texto não leva as situações a sério, e as piadas com o esconderijo secreto dos revoltosos (que lembra Os Miseráveis), com a revelação sobre quem é a mãe da protagonista e com a obrigatoriedade de final feliz seguem a mesma energia de musicais cínicos como Avenida Q.

A direção de Zé Henrique é a força gravitacional que mantém todos esses elementos harmoniosamente unidos. O diretor sabe equilibrar o espetáculo, sendo tosco o suficiente para que o musical não caia na grandiloquência e auto-reverência que contaminam outras produções, mas também sendo cuidadoso e perfeccionista o bastante para que a peça seja propositalmente satírica, mas nunca malfeita.

Sob a mão do diretor e da preparadora de elenco Inês Aranha, os atores apresentam performances competentes e um timing cômico irrepreensível: os destaques são a protagonista, Bruna Guerin (cantora excelente e atriz cômica ainda melhor), Luciana Ramanzini (brilhante como a Garotinha, equilibrando doçura e esperteza e sendo caricata na medida certa, sem pesar a mão), Roney Facchini (deliciosamente cínico, maléfico e esperto o suficiente para não se levar muito a sério quando canta), Caio Salay (que constrói seu Bonitão com habilidade, dotando-o com uma surpreendente profundidade emocional) e Fabio Redkowicz (hilário, especialmente pelo tônus e pela partitura corporal que apresenta).

O coro também merece atenção, pois é possível ver a pesquisa que cada ator e atriz fizeram para compor seus miseráveis. É interessante ver as relações que surgem entre eles, os corpos característicos que cada intérprete constrói para si, e as mudanças pelas quais cada personagem do coro passa do primeiro para o segundo ato.

Assim, com uma equipe criativa talentosa (da direção e preparação do elenco aos atores, passando pelo cenário, figurino e iluminação) e sem cometer o erro recorrente das produções de pequeno e médio porte, de tentar ser maior do que conseguiria (e deveria) ser, Urinal se mantem como um dos mais interessantes musicais em cartaz, tanto pelo espetáculo em si quanto por fazer parte de uma trajetória de produções (como a montagem paulista de Godspell, em 2013, além de outras peças nacionais) que mostram que é possível se pensar em teatro musical sem ir direto para os blockbusters da Broadway.

URINAL, O MUSICAL
Texto: Greg Kotis e Mark Hollmann.
Versão em Português: Fernanda Maia e Zé Henrique de Paula.
Supervisão das Versões: Claudio Botelho.
Direção: Zé Henrique de Paula.
Direção Musical e Regência: Fernanda Maia.
Elenco: Adriana Alencar, Arthur Berges, Bia Bologna, Bruna Guerin, Caio Salay, Fabio Redkowicz, Gerson Steves, Jonathan Faria, Luciana Ramanzini, Marcella Piccin, Nábia Vilella, Pier Marchi, Roney Facchini, Thiago Carreira,Tony Germano eZé Henrique de Paula.
Músicos: Rafa Miranda (Piano), Clara Bastos e Pedro Macedo (Baixo), Abner Paul e Rafael Lourenço (Bateria), Flávio Rubens e Marco Rochael (Clarinete/clarone/Saxofone soprano e saxofone alto) e Valdemar Santos Nevada e Evandro Bezerra (Trombone).
Preparação de Atores: Inês Aranha.
Preparação Vocal: Fernanda Maia.

 

SERVIÇO
De 17 de fevereiro a 21 de abril. Quartas e quintas, às 21h.
Ingressos: R$ 80,00 plateia / R$ 50,00 balcão e frisas
Classificação: 10 anos
Duração: 135 minutos (15 min de intervalo)

TEATRO PORTO SEGURO. Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3226.7300

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