CRÍTICA: “A ÚLTIMA DANÇA” TRAZ SOLO VERSÁTIL SOBRE A CONDIÇÃO DO TRABALHO HUMANO

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"A Última Dança". Foto: Flávio Tolezani.
“A Última Dança”. Foto: Flávio Tolezani.

 

SÃO PAULO –O homem vive em função da máquina. Nos tornamos acumuladores de tarefas na busca da sobrevivência. Palavras como polivalência e otimização do tempo são parte do vocabulário humano. No DNA dessas atitudes, estão a Revolução Industrial, as fábricas, e o invento do próprio relógio – que tornou possível contar o dia, noite e nos controlar. Esses adventos e o mundo do trabalho foi e é motivo de estudo por vários filósofos. E entre eles, figura a francesa Simone Adolphine Weil (1909 – 1943), que ganha vida no solo interpretado por Natalia Gonsales, no Viga Espaço Cênico, as segundas-feiras, às 21h, até 15 de agosto.

"A Última Dança". Foto: Flávio Tolezani.
“A Última Dança”. Foto: Flávio Tolezani.

A Última Dança trata dos escritos de Simone no cotidiano de uma fábrica. A estudiosa resolveu largar a academia e os muros da universidade para entender na prática como vivia uma operária. Em 60 minutos, Natalia nos apresenta a filósofa, sua necessidade de experimentação, as teorias e reconstrói cenas dela na fábrica. A performance faz a atriz brilhar e exige que em um curto espaço de tempo, passe entre a personagem e uma professora. Com isso, o solo ganha leveza e didatismo. A plateia tem a chance, então, de aprender, refletir e assistir a uma representação.

O diário de Simone foi adaptado para o teatro pelo diretor e coordenador do Núcleo de Dramaturgia do SESI, César Baptista. Além do texto ora duro, ora desconstruído criado pelo dramaturgo, a experiência sensorial no espetáculo é fundamental para o clima de A Última Dança.

A trilha sonora criada por Daniel Maia é composta por ruídos das correias, o sonar do relógio e barulhos de macetadas, além de outras músicas compostas por ele próprio. A luz desenhada por Igor Sane tem cumpre a tarefa de transitar entre o calor e o frio das fábricas. Já o cenário e o figurino criados por Flávio Tolezani trazem das máquinas das fábricas e a vestimenta dos operários ao ambiente de uma cientista estudiosa.

A Última Dança nos apresenta a uma forte mulher, reflete a nossa vida como um baile levado à exaustão, em que tudo o que fazemos é trabalhar, repetir padrões e funções, sem sequer refletir a nossa condição de trabalho e humana.

Ficha Técnica
Concepção e Atuação: Natalia Gonsales. Encenação: Natalia Gonsales, César Baptista, Fernanda Bueno e Janaína Suaudeau. Provocadores: César Baptista e Janaína Suaudeau. Criação Dramatúrgica: César Baptista. Direção de Movimento e Coreografia: Fernanda Bueno. Composição Sonora: Daniel Maia. Iluminação: Igor Sane. Cenário: Flávio Tolezani. Figurino: Natália Gonsales. Designer Gráfico: Murilo Thaveira. Fotografia: Flávio Tolezani. Produção Executiva: Anna Zêpa. Direção de Produção: Natalia Gonsales

Serviço:
Estreia: 13 de junho.
Duração: 60 minutos.
Classificação: 12 anos.
Local: Viga Espaço Cênico – Sala Viga.
Rua Capote Valente, 1323. São Paulo / SP
Capacidade: 80 lugares.
Informações: (11) 3801-1843
Temporada: 13 de junho a 15 de agosto, segundas-feiras, às 21h
Ingresso: R$ 30
Horário de funcionamento da bilheteria: duas horas antes do espetáculo, com possibilidade de reserva por telefone a partir das 14h, para chegada até 15 min. antes do início da sessão. Gênero: drama. Até 15 de agosto.

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!