Crítica: Ainda não temos a fórmula certa de resistência

RIO DE JANEIRO: A competição é mais importante do que um debate?  Num fictício encontro entre os líderes Malcon X e Martin Luther King a peça O encontro, de Jeff Stetson procura contrapor o discurso do amor de um lado e o da força do outro. Durante mais de uma hora de peça o que vemos é um duelo de ideias, contraposições e argumentos entre as duas figuras, de maneira que o debate é mais primoroso do que um possível consenso. O texto procura delimitar a personalidade de cada um bem como as conhecemos pelos registros históricos, filmes, discursos e entrevistas. Desse modo, a direção de Isaac Bernart também procurou orientar os atores para atuações marcadas pelas eloquentes características dessas personalidades das mais importantes do século XX.

O embate entre os dois fica no plano dos discursos sobre qual o melhor método de combater o racismo nos EUA daquela época. É certo desde o princípio que não marcam tal encontro para chegarem a um consenso, ou delimitarem uma luta conjunta, ou chegarem a um denominador comum. Pelo contrário, o que vemos é um embate de ideias o tempo inteiro, discordância sobre o mesmo tema que propicia uma discussão cheia de conteúdo e de problematizações do movimento do qual fazem parte. Pelo menos aos olhos do espectador fica a ideia de que a luta engajada pelos direitos do homem, pode ter mais de um viés e de uma forma, mas sempre será uma luta difícil. Se Malcoln é convicto de que a violência dos brancos contra os negros deve ser revidada na mesma moeda e Martin está certo de que somente o amor e a não violência podem mudar essa situação de ódio contra o seu povo, resta a dúvida ao espectador contemporâneo de qual é a melhor forma de resistir, de lutar, de seguir em frente ainda nos dias de hoje.

É interessante pensarmos juntos também como a necessidade de um líder, de um herói é sempre problemática. Quando dependemos que uma pessoa ocupe esse lugar, quando protegemos demais um líder por que senão temos medo de perder ou de não conseguir lutar, já perdemos a luta. Tanto Malcon como Luther king nos deixam o legado de que toda a ação revolucionária deve ser conjunta. Depender de uma figura fragiliza a luta por que abater, tirar a vida, aprisionar essa única pessoa é mais fácil do que aprisionar uma multidão, um grupo inteiro. E essa experiência histórica é mais atual do que nunca no Brasil que vivemos hoje. Há um diálogo na peça em que Malcon fala sobre isso. Ele se senta na mesa em que está um tabuleiro de xadrez e usa o jogo como alegoria para discutir sobre essa necessidade de um líder. Para ele todos devem ser peões e que quando todos entenderem isso, um novo jogo começará. É um discurso democrático, de igualdade e em prol da multidão.

A direção do espetáculo é bastante convencional. O texto não permite muita criação já que se concentra no belo diálogo entre os dois. Esse diálogo parece ser uma carpintaria de frases feitas, como se os dois personagens tivessem previamente ensaiado o que diriam um para o outro em tal encontro. Nesse sentido o provocador é Malcon, já que é o anfitrião do encontro no seu quarto de hotel, e o contestador é Luther King.  As atuações destacam essa características através de entonações firmes da fala, com certa formalidade retórica ao dizerem o texto, para que nenhuma palavra se perca.

O tempo rítmico do espetáculo é dado por essa formalidade oral, no sentido de serem empostadas, destacando o teor mais literário do texto, mesmo na intimidade de um encontro num quarto de hotel.  O que quebra esse ritmo são as intervenções musicais, muito bem executadas e com a força e beleza ímpar da música negra americana. Porém elas acabam se tornando um expediente repetitivo que não agrega alteração no tempo-ritmo do espetáculo já que os músicos se colocam sempre da mesma forma frontal em cena. A ideia de ser um coro de igreja fica evidente e é uma referência importante e forte, mas ao longo do espetáculo ela se mostra uma marcação de cena previsível, como se já antevíssemos a entrada dos músicos em cena.

O espetáculo já esteve em cartaz, fez bela temporada no Sesi, na Graça Aranha. Era lindo ver um púbico fortemente negro se vendo, se ouvindo em cena. Agora, um dos atores, Rodrigo França, está em cartaz todas as noites no Big Brother Brasil dando aula sobre o como se dá e se combate o racismo estrutural e velado da nossa sociedade para os confinados da casa. Assim como Martin Luther King, seu personagem, ele ensina com muita coragem, firmeza, amor e suavidade. Ubuntu!

Ficha técnica

Texto: Jeff Stetson

Tradução e adaptação: Rogério Correa

Direção: Isaac Bernart

Elenco: Dreyson Menezzes, Izak Dahora e Rodrigo França

Direção musical: Serjão Loroza

Orientação científica: Lourenço Cardoso

Cenário: Dóris Rollemberg

Iluminação: Aurélio de Simoni

Figurinos: Desirée Bastos

Dâmaris Grün

Dâmaris Grün é atriz e bacharel em Teoria do teatro pela Unirio. Foi colaboradora da revista carioca Questão de crítica, como crítica ensaísta, jurada do Prêmio Questão de Crítica e coordenadora do Prêmio Yan Michalski para o teatro em formação.

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