CRÍTICA: “ALICE, RETRATO DE MULHER QUE COZINHA AO FUNDO”, OU O ELOGIO AO PEQUENO

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Baseado na vida de Alice B. Toklas, companheira de Gertude Stein, monólogo dirigido por Malú Bazan e escrito por Marina Corazza acompanha a vida das duas mulheres. O espetáculo segue temporada gratuita na Oficina Cultural Oswald de Andrade até 28/01

De tempos em tempos, Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo fala sobre aqueles que convivem com os gênios. Alice relata ter se sentado ao lado das esposas de diversos gênios, já que ela mesma foi a esposa de alguém notável. Existe uma grandeza linda, delicada, sensível em Alice ao falar da pessoa comum, do amor corriqueiro, Ao dar voz à esposa de Gertude Stein, e não à grande autora, o espetáculo é um elogio sutil a todos nós que também não somos geniais. Ou, mais: é um lembrete de que somos todos geniais à nossa maneira, no nosso tamanho, em nossa banalidade.

Propositalmente embaralhado no começo, cheio de frases desconexas que só farão sentido no futuro, ora pela contextualização, ora pela repetição, como se fossem mantras, o monólogo vai lentamente cobrindo a vida de Alice B. Toklas, companheira de uma vida de Stein, autora de um livro de receitas e assunto de A Autobiografia de Alice B. Toklas, escrito por sua esposa. O texto fluído de Marina Corazza apresenta com legítimo interesse seu objeto de estudo, dando espaço e voz a uma Alice que não é, em nenhum momento do espetáculo, eclipsada por sua célebre amada. A dramaturga não parece deslumbrada com o tamanho de Stein, nem com o de outras figuras notáveis que tornaram-se amigas do casal, voltando sempre seu olhar para o pequeno, para o mundano, para o dia a dia. Claro que eventualmente se fala de coquetéis e de riquezas, mas isso não parece ter mais importância do que todo o resto menos glamouroso.

Diz-se repetidamente no espetáculo que amar é escutar, e isso é muito potente dentro do contexto da obra, mas é importante apontar que amar é também dizer. Alice é uma declaração de amor da equipe criativa a essa mulher, e ao cotidiano, e ao amor que se soma dia após dia e que existe por uma vida inteira. Essa habilidade em tirar poesia do que é corriqueiro é uma das maiores forças do espetáculo.

A outra, naturalmente, é a incrível Nicole Cordery. Atriz imensa, Cordery alterna com notável agilidade entre diversos personagens, da narradora a Picasso, passando por Stein. Inteligente e com uma presença inegável, é ela quem abrilhanta o bom texto, mantendo o todo coeso. É interessante perceber que o elogio ao pequeno também se encarna na interpretação de Cordery, que cria uma Alice carismática mas não idealizada, com defeitos e desequilíbrios que dão à personagem a tridimensionalidade necessária.

É bonita essa ação de encontrar imensidão nas pequenas coisas, de ver o brilho naquilo que é mais discreto, de levar à cena a vida normal.

Amar é fazer teatro.

Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo
Dramaturgia: Marina Corazza
Direção: Malú Bazán
Atriz: Nicole Cordery
Cenários e figurinos: Anne Cerutti
Iluminação: Nelson Ferreira
Trilha sonora: Rui Barossi e Pedro Canales
Apoio vocal: Lucia Gayotto

Serviço
Até 28/01. Quintas e sextas às 20h, sábados às 18h. Aos sábados, após o espetáculo há bate-papo com a atriz, a dramaturga, a diretora e a jornalista convidada Gabriela Longman, doutoranda em teoria literária pela USP.
Grátis.
Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363. Bom Retiro.