CRÍTICA: “AMANDA” E AQUILO QUE SE PERDE

amandaFernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO – Solo de Rita Clemente com dramaturgia de Jô Bilac versa sobre uma mulher que lentamente perde audição, paladar, olfato, tato e visão e investiga o que sobra de nós quando não temos mais ninguém. O espetáculo fica em cartaz no Sesc Consolação até 11 de outubro

Quando, no final da década de 1930, Dalton Trumbo escreveu Johnny Vai À Guerra, o autor usou a história de um soldado mutilado em combate para discorrer sobre os horrores da Primeira Guerra Mundial. O livro acompanha a tragédia do jovem combatente Johnny, sobrevivente de uma explosão, que perde braços, pernas, mandíbula, e torna-se cego, surdo e mudo, e sofre para entender e para ser entendido pela sociedade à sua volta. Ignorado por seus pares e tratado como objeto de estudo pela equipe médica, Johnny tem seus pedidos de eutanásia constantemente negados, tornando-se assim prisioneiro na solitária que se tornou seu corpo.

Temas militares à parte, Amanda, monólogo estrelado e dirigido por Rita Clemente, com co-direção de Diogo Liberano e dramaturgia de Jô Bilac também versa sobre esse isolamento aparentemente intransponível decorrente da incapacidade de interagir com o aquilo que está além de nós. A questão fundamental é que, à medida que a personagem-título vai perdendo seus cinco sentidos, revela-se na mesma medida a insensibilidade daqueles que convivem com ela.

Como é possível, pergunta o texto, manter uma conversa sem que o interlocutor perceba que você não o está ouvindo? Qual é a diferença entre a falta de audição de Amanda e a falta de sensibilidade de sua amiga que fala, fala e fala sem nunca se dar conta de que não está sendo ouvida? O que é, pois, uma comunicação real?  – se é que isso de fato existe.

Assim como Saramago, que abre seu Ensaio Sobre a Cegueira citando que “se podes olhar, vê; se podes ver, repara”, a tríade Clemente-Liberano-Bilac faz da perda um elogio à presença. Quanto tempo temos até nunca mais ouvirmos a voz de um ente querido? Ainda podemos sentir o gosto daquela comida que provamos uma vez e que não conseguimos fazer igual, mesmo tendo a receita em mãos? Estamos, verdadeiramente, em contato com o presente, absorvendo-o por todos os meios possíveis, ou estamos impermeáveis ao que nos ocorre? Deste modo, o texto transcende a crítica à sociedade ensimesmada de hoje e mostra-se um elegante e nada óbvio estudo sobre a saudade, o luto e o desperdício.

As escolhas da direção reforçam a atmosfera de desarranjo proposta pela dramaturgia ao estabelecer modos não convencionais de utilizar os objetos de cena. Os diferentes jeitos de se sentar na cadeira, o frágil bule usado como apoio e o chá que cai na mesa e no chão mas não nas xícaras expõem como a protagonista vai gradativamente migrando da realidade objetiva para a subjetiva. E Clemente mostra-se madura ao dar conta das contradições emocionais de uma Amanda que mistura riso e choro, e se mostra fascinada e desolada pelo seu novo estado.

Diz o ditado que nenhum homem é uma ilha. Amanda propõe que talvez não sejamos, mas estamos sempre a um passo do isolamento. Não há ideia mais assustadora.

AMANDA

Direção Geral, Concepção e Atuação: Rita Clemente
Codireção: Diogo Liberano
Assistente de Direção: Paulo Maffei
Texto: Jô Bilac
Trilha Sonora Original: Marcio Monteiro
Criação de Luz: Leonardo Pavanello
Preparação Corporal/Direção de Movimento: Cristiano Sousa Reis

Servico:
Até 11 de outubro de 2016. Segundas e terças, às 21h00
Sesc Consolação – Espaço Beta. R. Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque – 3° andar
Ingressos: R$ 20,00 (inteira),  R$ 10,00 (meia-entrada: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência) ou R$ 6,00 (credencial plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).

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