SÃO PAULO – Miguel Falabella sabe que o teatro pode ter a função de provocar reflexões, mas, também, de ser um produto, de alta qualidade, que proporciona divertimento, encantamento e toda sorte de adjetivos que o tornam um grande entretenimento. É essa segunda tipificação de objetivos que Falabella busca em seus espetáculos e, sem pretensões de realizar uma obra que modifique ideias, ideais etc., faz com que a superprodução musical Annie, em cartaz até 16 de dezembro, seja um grande deleite para toda a família.

O texto de Thomas Meehan, com música de Charles Strouse e letras de Martin Charnin, baseado em Little Orphan Annie, tem como pano de fundo a grande depressão norte americana, narra as relações abusivas entre a tutora e as órfãs de uma instituição, onde ao invés do direito à educação são submetidas ao trabalho escravo; contudo o raso tratamento dado a essas questões tem apenas o viés ilustrativo, servindo aos objetivos adocicados da trama. Os conflitos são amarrados com nós bastante quebradiços, sendo assim o espetáculo mais do que apresentar problemas ou dificuldades, funciona como uma painel de acontecimentos que levam a protagonista, Annie, à conquista do multimilionário Oliver Warbucks.

Sem levar em consideração os “afrouxamentos” dos conflitos e do aprofundamento na discussão deles, o musical Annie alcança o intento de promover uma diversão despretensiosa e de alta qualidade. São fatores fundamentais para o engrandecimento da produção as deliciosas interpretações de Maria Clara Rosis como Annie, Ingrid Guimarães e Cleto Baccic como os irmãos Mrs Hannigan e Rooster; a tresloucada Lilly vivida por Carol Costa; a elegância, sobriedade e firmeza de Grace, vivida por Sara Sarres; as dicotomias delineadas sensivelmente por Miguel Falabella em seu milionário Oliver Warbucks, cuja infância dura e trabalho árduo (a típica meritocracia difundida pelos americanos) levou-o a conquistar fortuna; a empatia e graça de Maria Clara Bueno como Molly, além da coesão do elenco como um todo.

O cenógrafo Matt Kinley (que para o empresário Cameron Mackintosh criou as aclamadas cenografias de Les Miserables, Miss Saigon, O Fantasma da Ópera e Mary Poppins e para os musicais brasileiros Chaplin e o Homem De La Mancha) confirma seu talento indiscutível, fazendo para o Atelier de Cultura uma cenografia exuberante, com um maquinário de extrema qualidade e competência, além de cenas antológicas como o passeio pelas ruas de New York até o cinema e a transformação da mansão de Warbucks para os festejos natalinos, dando à Annie uma megaestrutura, pouco vista no Brasil, que coloca o musical lado a lado à as produções da Broadway e a West End.

Os figurinos de Ligia Rocha e Marco Pacheco, altamente bem cuidados, segue o padrão de qualidade visto em Hebe, o musical.

O desenho de luz de Mike Robertson (laureado com o Olivier Awards) dialoga com a cenografia tendo também seus momentos antológicos: como ocorre com a cenografia, as cenas do passeio em New York e da transformação da mansão de Warbucks numa espécie de neons e outras iluminações natalinas fogem de quaisquer descrições.

Daniel Rocha, responsável pela direção musical, contribui para a coesa qualidade do espetáculo, assim como fazem as coreografias certeiras de Katia Barros.

Regendo toda essa monumental obra de entretenimento está o diretor Miguel Falabella, auxiliado por Floriano Nogueira, extraindo o melhor de todos os participantes (incluindo as dezenas de funcionários que estão por trás da cena) e trazendo ao espectador a fruição de uma experiência agradável.

Cabe ressaltar que o Atelier de Cultura, produtora do espetáculo, gerou inúmeras vagas de trabalho (são mais de 200 profissionais envolvidos) graças, também, à captação de recursos via Lei Rouanet e é sumamente importante sua manutenção pela próxima administração pública.

Serviço

Annie, o Musical
Onde: Teatro Santander (Av. Juscelino Kubitscheck, 2.041, Itaim Bibi)
Quando: Sexta (31), às 21h, Sábado (1º), às 16h30 e 21h, e domingo, às 15h e às 19h
Ingressos: a partir de R$ 75
Classificação: livre