CRÍTICA: “ANTÍGONA”, UMA NÃO-TRAGÉDIA

SÃO PAULO – Após temporada no Rio e em Curitiba, monólogo de Andrea Beltrão dirigido por Amir Haddad cumpre carreira no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Narrando as consequências trágicas do embate entre Antígona e Creonte, rei de Tebas, e os fatos fundamentais que antecederam esse confronto. O espetáculo segue em cartaz até 18 de junho.

À frente de um painel que traça as origens e relações da personagem-título até Zeus, Andrea Beltrão deixa claro para o público logo de cara como será sua investida sobre Antígona. Solícita, a atriz recebe os espectadores à medida que entram na sala de espetáculos, deixando claro que durante o espetáculo eles devem se sentir à vontade para, inclusive, fotografar a apresentação.

Assim, antes mesmo do terceiro sinal Beltrão instaura a dinâmica do espetáculo: trata-se de uma tragédia sem a solenidade e a pompa comumente associados ao gênero, mas sim despojada e focando essencialmente na palavra e no trabalho de atriz.

Alternando-se entre a figura de narradora e diversos outros personagens citados na árvore genealógica que auxilia o público a não se perder no vai-vem de fatos, pessoas e datas, Beltrão fala não só da tragédia de Antígona, mas a de seu pai-irmão Édipo e de sua mãe-avó Jocasta e a daqueles que surgiram dessa relação incestuosa, bem como a de muitos que a antecederam.

É, como se pode supor, uma tarefa hercúlea (trocadilho não intencional) essa, a de tentar falar sozinha sobre as desditas de alguns dos nomes mais notáveis da sempre revisitada tragédia grega, bem como da ascensão e queda da cidade de Tebas, mas armada de um carisma e um talento assombrosos e apoiada pela direção precisa de Amir Haddad, Beltrão sai-se com elegância do exercício.

O procedimento de narrar, em uma hora, gerações de embates entre deuses e homens (e homens e homens, e deuses e deuses, e por aí vai) utilizando o mínimo possível de recursos – além do painel que serve um pouco como cartografia da história, Beltrão ressignifica constantemente um véu, sapatos, cadeira e microfone a fim de identificar cada um dos diversos personagens que apresenta – pode incomodar aqueles que buscavam uma encenação clássica de uma tragédia, e é compreensível a frustração daqueles que desejavam uma catarse ao final do espetáculo. Contudo, embora a abordagem de Antígona dilua um pouco a carga trágica do texto, pelo menos nos moldes tradicionais, ela encontra força em provar como o texto de Sófocles permanece atual em sua reflexão política e social mesmo depois de mais de dois mil anos de sua fatura.

Beltrão e Haddad extrapolam o potencial de Antígona e adicionam a ela passagens de Édipo Rei e As Bacantes a fim de falar do caráter universal da tragédia, seja na Grécia antiga ou no mundo contemporâneo: estamos todos a um passo da queda, seja por influência dos homens ou dos deuses. No panorama traçado pelo espetáculo, fala-se de tensões entre nações, de intolerância religiosa, de machismo, das relações de poder na família ou na política, das tradições, de vaidade, de ciúme, de cobiça, do amor e de seu preço.

É uma quantidade imensa de assuntos para serem discutidos em tão pouco tempo de sessão, mas essa ligeireza é mais um ponto forte do que um defeito da montagem. Ao expor essa dinâmica de apresentar os personagens, o conflito, a resolução e como ela detona um novo conflito com novos personagens, Antígona também se coloca como um meio e não um fim – é um fluxo de consciência, não a conclusão de nada, uma reverberação do estado atual do mundo (e do estado trágico contínuo dos homens) e não o apontamento de uma solução ou a oferta de uma catarse.

É uma abordagem arriscada essa de produzir um espetáculo que é quase uma anti-tragédia em sua forma, mas o talento de Beltrão e Haddad sustenta a proposta. Beltrão conduz a plateia com precisão, e salta com destreza de um personagem para o seguinte, criando tipos a partir do mínimo de recursos (uma postura, um adereço ou uma voz), mas com um bom efeito. Haddad ocupa-se de organizar a enxurrada de acontecimentos no palco, e cria imagens poderosas – com destaque para o suicídio de Antígona ou o autoflagelamento de Édipo.

Ambicioso, Antígona é um espetáculo que pode soar enganadoramente simples, mas que contém bastante estofo intelectual e técnico. Não é uma tragédia convencional – nem se pretende a isso – mas é uma forte reflexão sobre como nós permanecemos horrendamente falhos há mais de dois mil anos.

Antígona
De: Sófocles
Tradução: Millôr Fernandes
Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão
Direção: Amir Haddad
Com: Andrea Beltrão
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurino: Antônio Medeiros
Direção de Movimento: Marina Salomon
Ambientação e Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)
Operação de luz: Vilmar Olos
Operação de som: Andrea Zeni
Mídias Sociais: Rosa Beltrão
Camareira: Conceição Telles
Montagem cênica: Ricardo Rodrigues
Administração: Sérgio Canizio
Produção: Boa Vida Produções
Turnê nacional: Trigonos Produções Culturais

Serviço
SESC Consolação – Teatro Anchieta
Endereço: Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque
Telefone: 11-3234 3000
Dias: 13 de maio a 18 de junho, sexta a domingo
Horário: sextas e sábados às 21h e domingos às 18h
Recomendação etária: + 14
Duração: 60 minutos
Capacidade: 280 lugares
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) – R$ 25,00 (meia) – R$ 15,00 (credencial plena)

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

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