Crítica: Até quando conseguimos manter nossa máscara social? É a pergunta deixada por “Dogville”

SÃO PAULO – Embora o diretor Zé Henrique de Paula expresse sua intenção de flertar com o cinema, não se engane: a montagem de Dogville, adaptação de Zé Henrique de Paula para o filme de Lars Von Trier, é extremamente teatral e o fato não denigre o conjunto, pelo contrário, o espetáculo provoca inúmeras reflexões acerca do ser humano, suas máscaras sociais, cause efeito do capitalismo e, inclusive, menções às fake news, entre tantos pontos levantados pelo espetáculo.

Do filme de Lars Von Trier fica a fábula, os personagens e o desfecho, mas, o interessante da transposição teatral é a figura do narrador, interpretado por um luminoso Eric Lenate (que bom seria se todos os atores tivessem uma dicção tão clara quanto Lenate!) que pontua reflexões sobre os acontecimentos na pacata cidadezinha. Em alguns momentos a figura do narrador que apresenta a cidade, seus habitantes e seu modo de vida, fez-me lembrar de Nossa Cidade, de Thornton Wilder, embora o clima claustrofóbico – a cidade onde se passa a peça, Dogville está num beco sem saída, sufocada entre os alpes e uma única saída para a estrada – remeta à dramaturgia de Samuel Beckett e, completando a mixagem de escolhas dramatúrgicas, a eclosão de elementos marcadamente brechtianos como a inclusão de singela fábula para refletir sobre temas atemporais. A grandeza dramática de Dogville consiste em apresentar pessoas comuns decididas a serem “bons cidadãos”, mas que à medida que se apresentam possibilidades de “tirar vantagem” da situação mostram garras e dentes afiados que estavam escondidos atrás da máscara social.

Pontuando: a forasteira (podia ser uma refugiada), Grace, é “acolhida” pelos “beneméritos cidadãos” de Dogville. Em troca ela oferece ajuda em seus afazeres cotidianos para conquistar os moradores e poder ficar além das duas semanas que eles deram para ela provar ser uma pessoa boa. Ao final do período inicial estipulado ela está tão entrosada com os moradores da cidade que o voto pela sua permanência é unanime. Eis que num dia de festa, em que a presença de Grace na cidadezinha é festejada, policiais chegam com cartazes de “Procurada”, fato que é utilizado para justificar a exigência de maior dedicação da forasteira aos cidadãos de Dogville. Tom, o escritor “apaixonado” por Grace diz, com convicção, que trata-se da “lei de mercado”, uma vez que ela representa um perigo à cidade, “nada mais justo” que dedicar-se meia hora a mais ao povo de Dogville.

Não é à toa que o dinamarquês Lars Von Trier escolheu uma pequena cidade norte-americana para ambientar a história: a América é o berço do capitalismo, donde a expressão “lei de mercado” é um atenuante para “exploração”. O que os moradores de Dogville preparam para Grace: diminuir o salário e aumentar o trabalho, é o que os “donos do capital” desejam para seus negócios. O que mais pra frente acontece em Dogville, quando os policiais voltam à cidade com cartazes escritos “perigosa”, é a justificativa para a escravização de Grace, outra vez, maquiada pelo “perigo da situação”, levando, por fim, ao estupro coletivo de Grace, que passa a ser um “bem público”.

Dogville é um espetáculo repleto de leituras mas, quaisquer que sejam, o horror ao que o ser humano é capaz de fazer para justificar seus maus atos é patente em todas elas.

Vamos divagar um pouco: supondo que Grace é uma eleitora insatisfeita com o meio politico e que decide votar em um candidato que se apresente como o “messias” – mesmo que algumas “fake News” ou simplesmente “verdades” não checadas corroborem para sua forma “cruel” de posicionar-se – , mas, ao vencer a eleição, Grace, descobre que por baixo de sua máscara de mudança se esconde a mesma politicagem que a aborrecia. Mas, tal qual a personagem, perdoa – ou simplesmente não se deixa acreditar – a corrupção, acusações de supostas coligações com “milícias assassinas” etc. dos aliados de seu “messias”, por negação, por perceber que seu plano de um futuro absolutamente digno, não passa de uma farsa. Quando ela é colocada na parede sobre as pessoas da cidade, se elas são “suficientemente boas”, arrebenta a barragem entre o que ela queria acreditar como real e a realidade de fato. Espero que os nossos eleitores caiam na real assim como Grace, embora torça que a revolta da personagem, levando à medidas de extrema crueldade, seja substituída por atos plenamente democráticos.

Além do já mencionado eficiente desempenho de Eric Lenate, Mel Lisboa merece destaque em sua interpretação de Grace pela contenção e controle de suas emoções: embora a personagem apresente um certo cansaço por tudo que enfrenta e desilusão ao ver toda sua crença naquelas pessoas irem esgoto abaixo, ela permanece resignada até o fim.

Um elenco com grandes atores – Anna Toledo, Blota Filho, Chris Couto, Dudu Ejchel, Fernanda Couto, Fernanda Thurann, Gustavo Trestini, Marcelo Villas Boas, Munir Pedrosa, Rodrigo Caetano e Thales Cabral – não se poderia esperar nada além de coesão. Todos desempenham seus papeis, por menor que sejam, com brilho e verdade. Além de Eric e Mel, cabe ressaltar os desempenhos de Bianca Byington, Fabio Assunção e Selma Egrei.

Outro ponto de destaque são os figurinos de João Pimenta, com seus tons surrados dando um toque a temporal.

Conforme disse, na abertura dessa crítica, a intenção de Zé Henrique de Paula de aproximar o espetáculo teatral da linguagem cinematográfica, o que seria uma espécie de negativa do filme – bastante teatral – , não ganha força já que o foco teatral amplificado na montagem engole os vídeos apresentados, sejam as gravações ou os vídeos ao vivo. O teatro é, ainda bem!, a linguagem mais forte.

Ficha técnica:

Título Original: Dogville. Autor: Lars von Trier. Direção: Zé Henrique de Paula. Elenco: Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Bianca Byington (vera), Rodrigo Caetano (Tom Edison), Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thalles Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas Pai), Munir Pedrosa (Jack McKay), Selma Egrei Ma Ginger), Fernanda Couto (Glória) e Dudu Ejchel (Jason).  Idealização: Felipe Lima. Preparação de Elenco: Inês Aranha. Tradução: Davi Tápias. Assistência de Direção: Felipe Ramos. Cenário: Bruno Anselmo. Assistência de Cenografia: Guilherme Reis. Cenotécnico: André Salles. Equipe Cenografia: Paulo Sá, Wellington Carmo, Gilvan Carmo, Walmir Jr, Ferrinha. Pintura de Arte/Cenário: Russo. Montagem Cenário: André Boneco e Marcio Domingues. Diretor de Palco: Helder Bezerra. Contrarregra: Anderson Santos de Oliveira. Operador de Maquinaria: Cezinha. Iluminação: Fran Barros. Assistência Iluminação SP: Tulio Pezzoni. Assistência Iluminação RJ: Vitor Emanuel. Montagem Iluminação: João Gaspary e Rodrigo Lopes. Técnico Operador de Iluminação: Zeca Costa. Figurino: João Pimenta. Assistência Figurino: Marcelo Andreotti e Eugênio Santos. Camareiros: Allan Domingos e Rosa Rabelo. Visagismo: Wanderley Nunes. Assistência Visagismo: Alison Alvarez, Monique Couto e Equipe Studio W. Trilha Sonora Original: Fernanda Maia. Produção Musical: Leo Versolato. Operador de Som: Bernardo Nadal. Realização: Brisa Filmes e Sevenx Produções Artísticas. Produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi. Produção Executiva: Glaucia Fonseca e Dani D’Agostino. Produção Executiva RJ: Juliana Trimer. Coordenação Leis de Incentivo: Natália Simonete e Estufa de Ideias. Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais. Direção Audiovisual: Laerte Késsimos. Criação de Vídeo Mapping: Vj Alexandre Gozales. Direção de corte e Operação de Vídeo Mapping: Wellington Abreu. Cinegrafistas: Phillip Correia e Alexandre Vollú. Design Gráfico e Criação: Carlos Nunes. Programação Visual/Finalização: Sandra Tami.  Fotografia e Criação: Ale Catan. Assistência de Fotografia: Rafael Sá, Weslei Barba, Caio Toledo e Renan Martins. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.

Serviço:

DOGVILLE

De 25 de janeiro e 31 de março de 2019 – Sextas e sábados às 21h e domingo às 19h.

Ingressos: Sextas-feiras R$ 80,00 plateia / R$ 50,00 balcão/frisas. Sábados e domingos R$ 90,00 plateia / R$ 60,00 balcão/frisas.

Classificação: 16 anos.

Duração: 100 minutos.

TEATRO PORTO SEGURO

Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.

Telefone (11) 3226.7300.

Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.

Capacidade: 496 lugares.

Serviço de Vans: TRANSPORTE GRATUITO ESTAÇÃO LUZ – TEATRO PORTO SEGURO – ESTAÇÃO LUZ. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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