CRÍTICA: “BISPO” E A ARTE COMO POSSIBILIDADE DE TRANSCENDÊNCIA

Fernando Pivotto para o Aplauso Brasil (Fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Arthur Bispo do Rosário (1909/11? – 1989) ocupou um espaço muito específico entre a arte e a loucura, percebendo a realidade de modo muito particular e, portanto, provocando um debate sobre genialidade, delírio e a realidade objetiva. Artista que orientava sua obra para Deus, produzia a partir dos descartes da instituição psiquiátrica onde passou grande parte da sua vida e, por ressignificar materiais e inseri-los no campo artístico, foi mais de uma vez comparado a Duchamp.

Produzindo bordados, assamblages, objetos de artista e outras poéticas, Bispo do Rosário tinha uma lógica singular, criando aproximações do plano terreno com o divino e elaborando seu trabalho a partir de um pensamento mágico, com a figura do messias ocupando papel de destaque em seu discurso.

Falar dele e, especialmente, produzir a partir dele é, portanto, um exercício de aproximação de uma visão de mundo que se estabelece sob um filtro muito peculiar. Tentar pautar esta visão a partir de uma racionalidade medicinal seria não só um fracasso artístico, mas também um sinal de absoluta falta de conhecimento do universo retratado. Felizmente, Bispo, monólogo idealizado e interpretado por João Miguel, pretende ser um espetáculo que se comunica com o espectador por uma via mais afetiva do que intelectual, sendo coerente com o indivíduo sobre o qual se debruça.

A partir de uma dramaturgia estilhaçada que não se preocupa em construir uma história organizada cronologicamente, mas sim num fluxo de consciência que se assemelha a um transe religioso/artístico ou um devaneio, Bispo tece uma tapeçaria sobre o homem taxado como esquizofrênico-paranoico pela psiquiatria de então e estuda como a arte foi uma possibilidade de mediação entre ele e o meio que o cercava e excluía.

Sem tomar partido na disputa gênio-ou-louco, o espetáculo busca pela poesia nas falas e visões de Bispo do Rosário, focando seu olhar no homem e não no artista. As obras dele estão lá, preenchendo o palco ou sobre o corpo de João Miguel, mas parecem em segundo plano, como constelações que indicam rotas de navegação para se aproximar dos territórios de Bispo.

Evitando didatismos, o monólogo não pretende ser uma história de origem convencional, que acompanha o protagonista por momentos-chave de sua trajetória; nem explicar como o paciente se tornou o artista aplaudido. Ao contrário: o espetáculo é um vislumbre de seu cotidiano, um recorte possível que expõe uma via de contato, sem tentar dar conta do todo – justamente porque isso significaria organizar o todo a partir de uma racionalidade que foi excludente com o indivíduo retratado.

É uma boa escolha dramatúrgica, porque desafia a plateia. Para compreender a lógica de Bispo e entrar em diálogo com a peça, a plateia deve se emancipar de conceitos como temporalidade ou causalidade, valores postos em xeque pela coerência particular do texto. Leva-se tempo até se permitir entrar no jogo proposto, onde sensações e imagens têm mais valor do que fatos ou dados. Quem conseguir entrar em acordo com essa proposta, porém, poderá ter uma poderosa experiência.

No centro de toda essa estratégia de comunicação com o espectador está a figura de João Miguel, excelente ator em uma impressionante performance. O Bispo que ele constrói é coeso e honesto, sem qualquer cacoete ou clichê raso sobre o que é uma pessoa dita louca. João Miguel não imita alguém cuja percepção de realidade não é convencional, mas sim estabelece uma lógica própria que se mantém coerente ao longo da sessão, e é tão bem construída que o ator consegue transitar entre diversos estados com graça e facilidade notáveis.

Flertando com as artes visuais, a direção e a cenografia mais de uma vez extrapolam o palco e invadem a plateia, criando uma instalação da qual o público também faz parte. Esta lenta transformação da arquitetura cênica em uma obra de arte interativa também dialoga com o pensamento mágico que motivava o artista: a produção e fruição artísticas são formas ritualísticas de transcender a realidade imediata. O caráter místico ganha força ao final da trajetória, com a bela imagem de João Miguel dentro de um círculo de fogo, numa poderosa metáfora sobre morte, nascimento, magia e perseguição.

Há de se falar, contudo, sobre a arriscada opção de colocar um ator branco no papel de um homem negro. O espetáculo não se propõe a esse debate, e a raça não parece ser uma questão prioritária na encenação, mas é de se pensar se, sobre a luz de questões contemporâneas como lugar de fala, embranquecimento de personalidades negras, apropriação cultural e outros temas sensíveis, não é uma opção perigosa, por melhor que seja a atuação de João Miguel. É algo a se pensar, sobretudo num espetáculo que fala sobre pessoas à margem.

BISPO
Direção, Dramaturgia e Atuação: João Miguel
Concepção: João Miguel e Coletivo Bispo
Texto: Edgard Navarro e João Miguel
Diretoras Colaboradoras: Cristina Moura e Juliana Jardim
Trilha Sonora: André T. e Pupillo
Desenho de Som: André T.
Cenário:  Zuarte Júnior
Concepção painel: Domenico Lancellote
Concepção “Caixas”: Marepe
Iluminação: Luciano Reis
Figurino e Confecção Manto: Adriana Hitomi e Rebeca Matta
Confecção Roupa: Ró Amorim
Operação de Luz: Luciano Reis
Operação de Som: Marina Fonseca
Preparação Corporal: Jorge Itapuã Beiramar
Programação Visual: Adriana Hitomi
Registro Audiovisual e Vídeos: Eryk Rocha, Lúcio Fernandes Cesar
Fotografias: Diney Araújo, Rebeca Matta e Zélia Uchôa

Serviço
Até 23 de abril. Sextas e sábados, 21h; domingos, 18h
Ingressos: R$ 30,00, R$ 15,00 (meia-entrada: pessoa com 60 anos ou mais, servidor de escola pública com comprovante, pessoa com deficiência, aposentados e estudantes com comprovante) e R$ 9,00 (credencial plena)
Sesc Bom Retiro. Alameda Northmann, 185

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