CRÍTICA: “BOCA DE OURO”

SÃO PAULO – Existe certo humor latente nas obras de Nelson Rodrigues que, vez por outra, é negligenciado em algumas montagens. É compreensível, já que a análise social, a investigação brutal da moralidade e os finais, de infelizes a trágicos, podem conduzir a leituras mais sisudas ou sérias. Porém, da mesma forma que é compreensível, também é uma pena que se perca um dos elementos mais enriquecedores da dramaturgia rodrigueana.

De todos os acertos da versão de Gabriel Villela para Boca de Ouro, sem dúvida a valorização do tom farsesco e satírico é uma das maiores.

Sob sua condução, a espiral de perversão e corrupção na qual estão inseridos todos aqueles que se envolvem com o personagem-título (além dele mesmo, naturalmente) é apresentada de modo delirante, como num melodrama grotesco que, de tão estilizado, se torna patético e risível. Faz todo o sentido: acompanhando a história da morte de Boca através da reconstituição dos fatos pela ótica dos entrevistados, o texto propõe narrativas que, longe de se aproximarem de qualquer verdade objetiva, são contaminadas pela subjetividade e pelos interesses daqueles que narram. Villela, percebendo o terreno fértil que tem à frente, valoriza esse aspecto da dramaturgia e alia a ele sua estética característica, valorizando a teatralidade.

A presença dos atores assistindo à história em alguns momentos, a ressignificação dos objetos (taças podem ser máquinas de escrever, telefones etc), a chave de interpretação sob a qual os atores operam, tudo estabelece uma atmosfera fantástica que ressalta os pontos altos do texto em questão.

Há também, nessa escolha pelo cômico e pelo riso de escárnio, uma crítica ácida ao caráter malandro e até certo pessimismo: neste jogo de lobo comendo lobo, somos todos corruptíveis, traidores e egoístas, e não estamos, plateia, tão distante dos personagens ridículos e tragicômicos que ocupam o palco – afinal, estamos todos presos nas nossas próprias dinâmicas de poder e nas fogueiras das vaidades.

Se a proposta de encenação é tão funcional, cabe apontar que faz bem à montagem valorizar os momentos mais sérios e mesmo delicados, a fim de que os contrastes entre o riso e o drama ampliem a tessitura do espetáculo. Lavínia Pannunzio, como Guigui, sai-se particularmente bem nesse exercício, por conseguir ser cínica, ridícula e caricata quando necessário, mas saber construir com cuidado e senso de luto o momento em que sua personagem descobre a morte do amante. Por outro lado, alguns momentos que ganhariam mais força se levassem em conta a tensão, a humilhação, a violência e a indignidade (a exemplo, a primeira versão do encontro entre Celeste e Boca, ou a morte de Leleco) podem soar um apáticos.

Encenado de forma madura e coerente por Villela, Boca de Ouro é um elogio à obra de Nelson Rodrigues, bem como mais uma prova de que sua escrita permanece pertinente nos dias atuais – especialmente nas mãos de um diretor talentoso.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Boca de Ouro
Texto: Nelson Rodrigues.
Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela.
Elenco: Malvino Salvador, Lavínia Pannunzio, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Chico Carvalho, Leonardo Ventura, Cacá Toledo, Mariana Elisabetsky, Jonatan Harold e Guilherme Bueno. Iluminação: Wagner Freire.
Direção Musical e preparação Vocal: Babaya.
Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Monica.
Pianista: Jonatan Harold.
Diretores assistentes: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo.
Foto: João Caldas Fº.
Produção executiva: Luiz Alex Tasso.
Direção de produção: Claudio Fontana.

Serviço
Até 29 de outubro. Sexta e sábado, 21h, domingo 18h30
R$ 50,00 (sex); R$ 50,00 a R$70,00 (sáb e dom)
Teatro Tucarena. Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes.

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