CRÍTICA: “BOI RONCEIRO – UMA FÁBULA DE HORROR”

 

São Paulo – A Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP tem permitido, ao longo de suas edições, que grupos mantenham suas pesquisas, como a Cia dos Imaginários fez com O Taxidermista na primeira edição, de 2015, ou que dramaturgos testem técnicas (Os Arqueólogos, 2016) ou gêneros (O Teste de Turing, 2016). Ao chegar à sua terceira edição, a Mostra mantém seu caráter de plataforma de experimentos dramatúrgicos, como se nota com o espetáculo selecionado para abrir os trabalhos.

Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horror é um flerte do dramaturgo Ricardo Inhan com o terror, gênero raro nos palcos tanto por questões técnicas (que a literatura, por excitar a imaginação do leitor, e o cinema e a tv, por sua natureza gráfica, dão conta com bastante eficiência) quanto por costume. A investida no horror é sublinhada tanto pelo subtítulo do espetáculo quanto pelas rubricas que iniciam o texto e que são lidas pelos atores no começo da apresentação: os sons e a estética devem soar como um slasher movie dos anos 1970 – 1980 e trata-se de “um típico terror de cabana”.

Para fins de explicação: os slasher movies são filmes de assassinos seriais, que podem apresentar características sobre-humanas (grande força física ou resistência), e cujas mortes violentas dos personagens são o grande atrativo. Pense, por exemplo, em Sexta-Feira 13, Halloween e O Massacre da Serra Elétrica e perceba o que eles têm em comum: assim como no resto dos slasher movies, a trama gira em torno de uma máquina de matar imparável que persegue vítimas indefesas, e o horror surge daí, da percepção de que algo ou alguém pode entrar na sua vida a qualquer momento e coloca-la em risco iminente.

Terror de cabana, por sua vez, é um subgênero de terror onde uma pessoa ou um grupo está situado num local ermo e precisa lidar ou com o isolamento ou com a claustrofobia próprios do lugar. Citamos aqui como referência O Iluminado, A Morte do Demônio (tanto a versão de 1981 quanto a de 2013) e, à sua maneira, A Bruxa. Embora nos três exemplos o fator sobrenatural seja determinante, o terror de cabana se apoia no choque entre os personagens humanos e na aparição gradual de suas fragilidades psicológicas à medida em que a trama avança. Os EUA também têm uma expressão particular, cabin fever, para definir a irritabilidade ou inquietação causada graças à permanência em lugares afastados e fechados por muito tempo.

Mesmo tendo sua dramaturgia assumidamente inspirada em gêneros estabelecidos de terror, Boi Ronceiro – Uma Fábula de Terror resulta como um frouxo drama altamente discursivo, não pelo texto de Inhan, mas sim pela direção de Mariana Vaz, cuja mão pesada se faz sentir a todo momento. Na tentativa de subverter o texto ou de inseri-lo numa estética mais contemporânea, a encenação acaba sufocando a dramaturgia, deixando de certa forma a história, o conflito e o desenvolvimento dos personagens em segundo plano, escondidos atrás de uma movimentação cênica incessante e de propostas que pouco acrescentam ao todo (como o momento do abraço entre o Homem e o Estranho narrado pela Mulher: ao narrar algo que está sendo visto, a cena se torna redundante e ilustrativa).

A boa cenografia de Vaz e de Laura Andreato tem potencial: as dezenas de cercas presentes no palco e que são constantemente manipuladas pelos atores servem para desenhas a casa onde se passa a ação (e assim, definir a claustrofobia que é importante para o terror de cabana) e para expor as tensões entre os personagens, já que a sua movimentação constante volta e meia serve para aprisionar alguém. O problema é que o que seria um bom efeito se usado com parcimônia se torna um evento constante ao longo da sessão: são raros os momentos em que o elenco não se ocupa em mexer nas cercas, de modo que isso se torna algo mecânico, vulgar, vazio. O que era uma ação – ou algo que é feito com um propósito – se torna uma atividade – algo que é feito apenas para que os atores não fiquem ociosos.

Se o elenco se preocupasse menos com a manipulação do cenário e mais com as relações entre si, talvez o espetáculo tivesse uma outra qualidade. Mas, do modo como está configurado, Boi Ronceiro – Uma Fábula de Terror é uma peça confusa, com tanto ruído (a iluminação, a cenografia, a sonoplastia) que é difícil perceber o assunto que está sendo debatido – o coronelismo, a violência, a maternidade como detonador de inseguranças (e nisso o espetáculo se aproxima de outro clássico do terror, O Bebê de Rosemary) recebem pouco destaque, fazendo com que o todo desmorone pelo peso da forma e da aparente falta de conteúdo – o que uma leitura atenta ao material entregue na entrada do teatro prova que a dramaturgia de Ricardo Inhan tem.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Boi Ronceiro – Uma Fábula de Terror
Dramaturgia – Ricardo Inhan.
Direção – Mariana Vaz.
Diretora colaboradora – Juliana Jardim
Elenco – Luciana Lyra, Paulo de Pontes e Pedro Stempnievski.
Cenografia – Mariana Vaz e Laura Andreato.
Figurino – Laura Andreato.
Desenho de Luz – Melissa Guimarães.
Trilha Sonora – Alessandra Leão e Missionário José.
Produção – Ariane Cuminale.
Fotos – Cacá Bernardes – Bruta Flor Filmes.
Vídeo – Bruta Flor Filmes.

Serviço
Até 02 de julho. Sexta e sábado às 21h, domingo às 20h.
Ingressos – R$ 10,00
Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1000.