CRÍTICA: “BR-TRANS” E O ESPAÇO DAS INVISÍVEIS

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil.

BR-TRANS
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SÃO PAULO – Em BR-Trans, montagem que flerta com o documental e o performativo, o Coletivo As Travestidas continua sua pesquisa sobre o universo trans.

Existem duas coisas fundamentais a se saber sobre BR-Trans. A primeira, é que o espetáculo é bom. A segunda, que o Brasil ocupa o desonroso primeiro lugar no ranking de países que mais matam travestis e trans.

BR-TRANS
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Ao sermos confrontados com a brutal violência da realidade das travestis e transexuais, parece quase mesquinhez apontar os pontos altos e baixos do espetáculo de Silvero Pereira e Jezebel de Carli. Pouco importa se o performer acerta todas as notas nas canções (nem sempre), se a projeção conspira contra o belo blackout ao final do espetáculo, se às vezes o espetáculo extrapola na emoção e se torna melodramático ou se cai nos clichês do teatro contemporâneo em alguns momentos (uso de comida em cena, check; uso de giz, check; uso de microfone, check; luz operada pelo próprio intérprete, check; uso de projeções, check; etc.). Todas estas questões devem ser observadas, é claro, e contribuem para a maior ou menor fruição do espetáculo. Assim como também devem ser observados o carisma e desenvoltura de Pereira em cena, ou a dramaturgia bem costurada, ou algumas ideias realmente boas (a cena do abacaxi, ou a poderosa sucessão de imagens de travestis mortas ao longo de alguns anos e, sobretudo, o poético e agridoce final). Todos estes elementos tornam o espetáculo o que ele é, para o bem e para o mal.

Ainda assim, questões estéticas e técnicas à parte, o espetáculo tem a força que tem por se propor a dar a voz a diversas travestis e mulheres trans, que são tão invisibilizadas ou reduzidas ao espectro de caricaturas ou objetos sexuais em nossa sociedade.

BR-TRANS
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Com respeito e delicadeza, Pereira e de Carli usam o palco para mostrar um fragmento da vida de garotas reais, e nos lembrar que aquelas que são violentamente mortas, ou agredidas, ou abandonadas, ou obrigadas a vender o corpo como única forma de viver são pessoas com sonhos, ambições, medos e fragilidades, apesar do que conseguimos ver com nossa lente poluída pelo preconceito e desinformação.

O coletivo tem a coragem de nos fazer rir e nos identificar com as histórias de algumas das meninas, para no segundo seguinte nos informar que cerca de 500 travestis são mortas por ano no país. Assim, ressoa a incômoda pergunta: o que nós temos feito para impedir este genocídio?

Pela coragem de humanizar pessoas que os programas sensacionalistas de televisão insistem em desumanizar; de apontar que a culpa da morte e violência dessas pessoas é tanto nossa, com nossos preconceitos e piadas transfóbicas quanto daqueles que manipulam a pedra, a faca ou o revólver; por trazer aos palcos um flerte com a deliciosa cultura de performance drag que fica marginalizada às boates e bares LGBT e por fazer um contundente manifesto político (repito: é impossível não ser atravessado pela cena em que projetam-se fotografias de pessoas que foram violentamente mortas apenas por sua identidade de gênero) em defesa da diversidade, tanto BR-Trans quanto o coletivo As Travestidas merecem ser vistos de perto.

FICHA TÉCNICA

Texto Silvero Pereira Dramaturgia cênica Jezebel de Carli e Silvero Pereira Direção Jezebel de Carli Com Silvero Pereira Músico Rodrigo Apolinário Cenário Silvero Pereira e Marcos Krug Cenotécnico Rodrigo Shalako Figurinos, maquiagem e adereços Silvero Pereira Iluminação Lucca Simas Coordenação técnica e de produção Ana Luiza Bergmann Produção em SP Performas Produções Direção de produção Andrea Caruso Saturnino Produção executiva  Ariane Cuminale

www.projetobrtrans.com.br

BR-Trans

Até 18/10. Quinta a sábado, 21h; domingos, 18h. Espaço Cênico. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 16 anos.

Sesc Pompeia

Rua Clélia, 93 – São Paulo. Telefone 3871-7700. Site sescsp.org.br/pompeia.

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