CRÍTICA: A BRINCADEIRA EM “SHTIM SHLIM – O SONHO DE UM APRENDIZ”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

shtim-shlim-renato-mangolin3SÃO PAULO – Grupo de contadores de história ocupa a Caixa Cultural com diversas atividades, incluindo o espetáculo Shtim Shlim – O Sonho de Um Aprendiz, baseado num conto tradicional da cultura berbere, povo nômade do Norte da África. A peça, que une contação de história e instalação, vai até o dia 20 de novembro.

O que é participar de uma história? Apesar de retórica e subjetiva, é uma pergunta que encenadores, atores, dramaturgos, contadores e demais artistas da narrativa se fazem constantemente.

Para Os Tapetes Contadores de História, que ocupa a Caixa Cultural com oficinas, instalações e contações, a resposta desta questão parece ser “ativamente”. Pelo menos, é isto que se supõe ao acompanhar o espetáculo Shtim Shlim – O Sonho de Um Aprendiz, realização do grupo e da diretora Inno Sorsy. A proposta da encenação extrapola o limite da caixa preta – ainda bastante em voga quando se fala em teatro infantil – e ocupa o saguão de entrada da Caixa e uma série de outras salas, criando uma série de ambientes por onde o grupo de contadores e espectadores transita à medida que a história de um aprendiz de mago se desenrola.

Valorizando tecidos, efeitos de luz e paisagens sonoras para ambientar os diversos estágios da jornada do aprendiz, o grupo é consideravelmente hábil ao instaurar uma atmosfera lúdica que contagia e convida à exploração da grande instalação idealizada por Cadu Cinelli. É o carisma dos quatro contadores, aliás, que sustenta a experiência mesmo em seus momentos mais mecânicos e burocráticos, como quando andamos pelos corredores que ligam uma sala à outra, onde nada efetivamente acontece e que claramente estão como estão por limitações físicas do espaço.

Se nem sempre as propostas de deslocamento contribuem efetivamente para a trama (como quando passamos por um túnel de elásticos que só está lá por estar, sem grande paralelo com a história), em seus melhores momentos a montagem é realmente inventiva. Os bonecos de tecido e os painéis iluminados que simbolizam a batalha mágica entre aprendiz e seu antigo mestre são de uma simplicidade e graça marcantes, e são tão poderosos justamente por partirem do mínimo, e se colocarem como um bom contraponto à grandiosa cenografia.

As tentativas de tirar o público do lugar de espectador também funcionam, em sua maioria. Os contadores são bons ao convidar crianças e adultos a participar de passagens como o leilão ou a festa de casamento do mago, no final da jornada.

Outros momentos, porém, parecem controlados demais para um evento que preza tanto pela espontaneidade e interferência: em dado momento, alguém do público é escolhido para fazer o papel de um rei sábio que deve julgar uma questão importante à trama. Ao invés de escolher, efetivamente, o eleito do dia deve repetir o texto soprado pela atriz, seguindo à risca o que já estava planejado pela dramaturgia. Claro que participar de modo passivo é ainda assim participar, mas ao correr esse risco calculado, o espetáculo perde um pouco do clima de brincadeira e improviso que lhe confere tanto charme.

Quando investe na simplicidade e na liberdade dos espectadores, porém, Shtim Shlim beira a genialidade. No final da sessão, os espectadores recebem dos contadores um papel recheado de sementes. Deve-se escrever um sonho no papel e plantá-lo, de modo que as sementes dentro dele germinem, e que os sonhos floresçam. Conseguir sintetizar de modo tão potente e concreto uma coisa tão subjetiva quanto a realização de um sonho é um feito muito valioso, e é muito difícil ficar indiferente a esta proposta do grupo.

Assim, colocando as pessoas como agentes não só da história de Shtim Shlim, mas de sua própria, Os Tapetes Contadores de História conseguem impactar com sucesso as crianças que os assistem – incluindo esta que escreve a crítica.

SHTIM SHLIM – O SONHO DE UM APRENDIZ

Coordenação Geral: Cadu Cinelli.
Direção:  Inno Sorsy.
Dramaturgia: Cadu Cinelli, Edison Mego, Inno Sorsy, Rosana Reátegui e Warley Goulart.
Colaboração Dramatúrgica: Luciana Zule.
Atores/Confecção Cenográfica: Cadu Cinelli, Edison Mego, Rosana Reátegui e Warley Goulart.
Concepção Cenográfica: Cadu Cinelli. Cenografia – Os Tapetes Contadores de Histórias.
Direção de Arte: Warley Goulart.
Supervisão Cenográfica: Analu Prestes.

Serviço:

De 8 de outubro a 20 denovembro, sábado, domingo e feriado, às 16 horas.
Grátis (distribuição de senhas 30 minutos antes).
Caixa Cultural. Praça da Sé, 111. Centro. São Paulo.

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