CRÍTICA: “BRUTA FLOR”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Com dramaturgia de Vitor de Oliveira e Carlos Fernando de Barros e direção de Márcio Rosário, espetáculo fala da intolerância a partir do triângulo amoroso entre dois homens e uma mulher. A temporada segue até 23 de fevereiro no Viga Espaço Cênico.

Nossos desejos são parte fundamental de quem nós somos. Nos movemos em função da realização deles, e o soterramento forçoso daqueles que nos são mais essenciais causa diversas neuroses. Tentar evitar amar aquilo que amamos, por exemplo, é um esforço sem tamanho, além de uma tentativa vã de alterar nossa natureza, e não por acaso é fonte de grande desgosto.

Bruta Flor parte deste pressuposto para tentar falar sobre homofobia internalizada e, embora a discussão seja válida, o assunto acaba sendo pasteurizado num espetáculo que parece indeciso sobre se quer ser uma comédia ou um drama de conscientização, e tudo fica mais raso do que um tema tão complexo como esse merece ser tratado.

Não que haja algo intrinsecamente mau em discutir com humor a reprodução da homofobia. O riso, afinal, pode ser um modo muito elegante de convidar ao debate, principalmente quando expõe o ridículo que é o preconceito e a intolerância. Contudo, ao usar o humor como modo de aliviar o peso da história de um triângulo amoroso onde um homem em conflito não sabe lidar com a paixão que sente por um amigo de adolescência, ao mesmo tempo em que se distancia cada vez mais da mulher grávida, a tragédia que cerca os três personagens parece leve, desimportante, sem gravidade.

Por um lado, é compreensível a tentativa do diretor, Márcio Rosário, e dos dramaturgos, Vitor de Oliveira e Carlos Fernando Barros, de ganhar o público pela simpatia. Talvez rindo, o público não estranhe que a peça fala do amor de dois homens, e talvez consiga se afeiçoar a eles graças ao riso. E as piadas, por mais fáceis que sejam, parecem surtir efeito, já que o público ri o tempo todo.  O problema é: estão rindo a que custo?

Citemos, por exemplo, a cena de sexo perto do final do espetáculo que detonará o crime de ódio ao redor do qual gira a trama. Desesperado por ter causado o aborto de sua esposa, Lucas, o homossexual em conflito, corre para a casa do amante, Miguel, em busca de consolo. Cansado de ter que viver num relacionamento conflituoso, onde o amado demonstra constante aversão pela sua sexualidade, Miguel decide terminar tudo, mas antes ambos decidem transar pela última vez, com uma condição: farto de ser submisso a Lucas, Miguel assume o papel de ativo, e penetra o namorado pela primeira vez. Pela soma de fatores envolvidos (a perda do filho, a tristeza pelo término, o desconforto psicológico em ser penetrado), é a transa mais significante dos dois, sobretudo de Lucas, e uma cena que pode conferir alguma profundidade aos personagens. Seria o caso se, ao final do sexo, Miguel não comemorasse com algumas micagens por ter comido Lucas.

A cena não só apresenta alguns problemas de verossimilhança (que adulto faz dança da vitória após ter feito sexo com uma pessoa que acabou de perder o filho?), como também de construção do drama. Ao invés de aprofundar a relação conflituosa entre Miguel e Lucas, ela só infantiliza o primeiro e neutraliza a importância da experiência pela qual passou o segundo.

Via de regra, o humor mantém-se presente por todo espetáculo e, embora trate-se de uma opção consciente da equipe criativa, há de se pesar que é uma decisão que enfraquece o drama. Por efeito de contraste, as cenas que não são infiltradas pela piada fazem bem para a narrativa, como os momentos em que Lucas (Fabio Rhoden) mostra para Miguel (Pedro Lemos) seus desenhos e demonstra uma bem-vinda fragilidade que oxigena sua personalidade linear; ou a cena em que Simone (Walquiria Ribeiro) aborta.

Assim, optando pelo que é tecnicamente seguro – o humor recorrente que seduz a plateia, e o melodrama que insiste em sublinhar os momentos intensos da peça, mesmo quando certas passagens talvez ganhassem pungência com um pouco mais de silêncio, como o já citado momento do aborto: qual a necessidade de uma música triste para emocionar a plateia quando Ribeiro já tem um desempenho tão bonito na cena? – Bruta Flor até consegue apresentar um tema pertinente nos dias atuais, mas não se sai muito bem ao lhe dar substância ou a propor novas leituras.

Claro que um debate sobre violência e intolerância é sempre válido, e que a mensagem final que elogia a coragem dos que ousam amar possui apelo universal, mas não faria mal nenhum ao espetáculo – e à discussão em si – investir um pouco mais no seu lado mais sério, seja para valorizar o riso que parece tão caro à equipe criativa, seja para conferir gravidade à mensagem.

Bruta Flor
Texto: Vitor de Oliveira e Carlos Fernando de Barros.
Elenco: Fabio Rhoden, Walquiria Ribeiro, Pedro Lemos.
Stand-ins: Erika Farias e Adriano Arbol.
Cenografia: Reinaldo Patrício e Maureen Miranda.
Figurinos: Rogério Almeida.
Cenotécnico: Reinaldo Patrício.
Trilha Incidental e Músicas: Cida Moreira.
Efeitos Sonoros: Pedro Lemos.
Efeitos Visuais: Rick Ramos.
Desenho de Luz: Guilherme Orro e Marcio Rosario.
Operador de Luz: Roberto Herrero.
Operador de Som: Adriano Arbol e Jamile Godoy.
Expressão Corporal: Rodrigo Eloi Leão.
Preparação Vocal: Marcello Boffat.
Fotos: Ronaldo Gutierrez.
Maquiagem e Cabelos: Edi Rodrigues.
Assessoria de Imprensa: Renato Fernandes.
Produção Executiva: Daniel Silveira.
Coordenação de Produção e Palco: Rogério Almeida.
Mídias Sociais: Angel Jackson.
Direção e Produção Geral: Marcio Rosario.
Realização: Três Tons Visuais.

Serviço
Até 23 de fevereiro. Quartas e quintas às 21h
Ingressos: R$70,00 e $35,00 (meia entrada)
Teatro Viga Espaço Cênico Rua Capote Valente, 1323. Pinheiros.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*