CRÍTICA: “CANTO PARA RINOCERONTES E HOMENS” E O APELO À SENSIBILIDADE

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)


Foto Rinocerontes (02)

SÃO PAULO – Com direção de Rogério Tarifa, grupo de atores recém formados pela EAD apresenta releitura musical do espetáculo O Rinoceronte, de Eugene Ionesco. O espetáculo está em cartaz no Centro Compartilhado de Criação (CCC), até dia 11 de abril.

Oswald de Andrade disse, em seu Manifesto Antropofágico, que a roupa que vestimos é uma camada impermeável que nos separa do mundo. Em sua visão, a vestimenta simboliza nossa tentativa de nos tornar algo à parte do mundo, algo que não pode ser atravessado ou comovido por ele – nos vestir, portanto, seria usar uma armadura que nos torne imunes e nos deixe mais aptos como o predador que almejamos ser.

Em O Rinoceronte, Ionesco parte de uma ideia similar: em determinada região, uma comunidade é desolada por uma estranha epidemia que transforma homens em rinocerontes. A couraça que protege os rinocerontes é uma das características mais marcantes do animal – tomemos, por exemplo, a gravura que Albrecht Dürer fez de um rinoceronte-indiano, em 1515, baseado simplesmente na descrição escrita e num esboço feitos sobre um exemplar do animal que chegara a Lisboa neste mesmo ano. O animal – segundo a história, o primeiro rinoceronte vivo a aportar na Europa desde o Império Romano – impressionou aqueles que o viam por sua couraça, e Dürer valorizou isso, criando um animal que parece vestir placas de ferro. Assim, uma das principais características do rinoceronte é a de não ser sensível.

É a partir desta característica que Ionesco expõe sua visão de mundo: o homem está se tornando, gradativamente, uma entidade bestial. Em resposta à sociedade em que vivemos, nos tornamos embrutecidos, irracionais, animalescos. Em resposta aos nossos tempos, desenvolvemos uma couraça que nos torna insensíveis, impermeáveis.

Uma das belezas do texto original é que a crítica, embora clara, não é definitiva, possibilitando que o espectador se aproprie dela – talvez nos tornemos embrutecidos pela violência dos nossos tempos; talvez a competitividade no mercado de trabalho seja a razão do nosso desconforto; talvez haja uma terceira (e quarta, e quinta) razão.

Em Canto Para Rinocerontes e Homens, o grupo opta por deixar claras as razões de Ionesco ao escrever a peça, e as razões do coletivo em montá-la. Se por um lado isso expõe os processos criativos do grupo, e deixa clara a mensagem que ele tenta passar, por outro tira do espectador o direito de brincar com as possibilidades que a dramaturgia oferece.

Talvez seja esse o maior problema do espetáculo, essa necessidade de tornar as coisas excessivamente claras e diretas, quase sublinhadas. Ao longo da montagem aparecem imagens interessantes justamente por não serem óbvias demais. A construção da cidade com blocos de madeira, e a representação, na primeira cena, de Bérenger (um toco torto e uma garrafa de bebida) e Jean (um toco reto e uma garrafa d’água) encantam justamente porque brincam com a multiplicidade de leituras. Por outro lado, também aparecem imagens (sobretudo no segundo ato) que são tão diretas e objetivas que parecem rasas, simplistas.

De modo geral, Canto Para Rinocerontes e Homens mostra muita força quando foge das respostas fáceis (e a equipe criativa, do diretor aos atores-criadores é hábil nesse sentido, apesar de alguns escorregões) e quando explora o absurdo e a estranheza no corpo, na dinâmica da fala e nas músicas (mérito dos atores que, se não são cantores com grande domínio técnico – e nem se propõem a ser, ainda bem –, são intérpretes afiados e apresentam as canções com segurança). Torna-se particularmente interessante quando subverte a si mesmo, por exemplo quando ressignifica o chifre do rinoceronte na transformação de Jean, ou quando o coletivo expõe uma bem-vinda fragilidade e serenidade na canção que encerra a peça. É um bálsamo, após três horas de cenas sempre afirmativas e de transformações homem/rinoceronte cheias de espasmos musculares, gemidos e sangue artificial, ver que o grupo pode surpreender com uma canção singela e delicada. Quando bem dosadas, a violência e a poesia levam o espetáculo a lugares incríveis.

Talvez a força e a fragilidade do espetáculo surjam do mesmo lugar: trata-se de um exercício cênico de formatura de uma das turmas da Escola de Artes Dramáticas da USP. Por um lado, vemos artistas que ainda estão amadurecendo mas, por outro, também vemos um coletivo que mostra bastante potencial – e isso é sempre um ponto positivo.

CANTO PARA RINOCERONTES E HOMENS
Baseado em: O Rinoceronte, de Eugene Ionesco
Dramaturgia: Jonathan Silva, Rogério Tarifa e elenco
Direção: Rogério Tarifa
Elenco: Gabriela Gonçalves, Guilherme Carrasco, Luísa Valente, Murillo Basso, Renan Ferreira, Rubens Alexandre e Viviane Almeid
Músicos: Bruno Pfefferkorn e Filipe Astolfi
Direção Musical e Preparação Vocal: William Guedes.
Composição Musicas Inéditas: Jonathan Silva.

Serviço
Até 11 de abril. Sábados e segundas, 20h; domingos, 19h.
Centro Compartilhado de Criação. Rua James Holland, 57, Barra Funda.
Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00

 

 

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