CRÍTICA: “CARNE”, OU SOBRE A MANUTENÇÃO DA VIOLÊNCIA

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

"O ARTE – Substantivo Feminino" traz companhia Kiwi para falar sobre as violências sofridas por mulheres no Sesc Belenzinho. Foto: divulgação.
“O ARTE – Substantivo Feminino” traz companhia Kiwi para falar sobre as violências sofridas por mulheres no Sesc Belenzinho. Foto: divulgação.

SÃO PAULO – Kiwi Companhia de teatro dá seguimento ao debate sobre as questões do universo feminino do programa “Arte – Substantivo Feminino”, do Sesc Belenzinho. O espetáculo segue temporada até domingo (6).

Existe uma piada antiga, que circula desde os primórdios da Internet (e desde antes) e que compara adjetivos masculinos e femininos. Por exemplo, “pistoleiro” é aquele que mata muitos. “Pistoleira” é puta.  “Cão”, melhor amigo do homem. “Cadela”, puta.  “Touro”, homem forte. “Vaca”, puta. “Homem público”, indivíduo proeminente e influente. “Mulher pública”, puta. “Puto”, irritado. “Puta”, puta.

Contudo, antes de ser uma piada (se é engraçada ou não, cabe debate), esta comparação mostra a grande variedade de ofensas verbais à mulher, e serve de reflexão sobre o modo como a ela é tratada na sociedade. Não por acaso, esta comparação inspira uma das cenas de Carne, peça da Kiwi Companhia de Teatro, com direção de Fernando Kinas e com Fernanda Azevedo e Mônica Rodrigues no elenco.

O que interessa à companhia é traçar um panorama das opressões impostas à mulher e quais são seus instrumentos de manutenção. As peças publicitárias que reforçam o papel de senhora do lar/objeto sexual; as músicas que dizem que um tapinha não dói; o humor que desumaniza e valida a ridicularização; a impunidade que acoberta os crimes contra a mulher; a diferença salarial… são várias as peças que compõem o mosaico exposto pelos artistas, que jogam luz nas causas e efeitos da misoginia em nosso país.

Muito próxima a Manual de Autodefesa Intelectual, espetáculo da Kiwi que ocupou as salas do Belenzinho em 2015, Carne não tem espaço para interpretações dúbias. Mais do que atingir a subjetividade do espectador, o que importa é informar, exibir dados e denunciar.  A simplicidade e objetividade ao tentar se comunicar com a plateia mostram um interesse genuíno em tratar deste tema com diversos tipos de públicos, versados ou não nas artes cênicas.

A facilidade do espetáculo (que ao invés de diluir sua potência, só a intensifica) é um dos pontos fortes da obra. Planejada para circulação, em sua longa carreira a peça já foi encenada em salas sindicais, comunidades carentes e outros espaços não convencionais, realizando seu potencial de democratização do acesso à informação e ao debate, num tema tão urgente.

E também não parece dar sinais de cansaço: com apresentações previstas para depois do término desta temporada, o espetáculo parece ter muito chão para correr, e infelizmente parece se manter atual por um longo tempo, já que os avanços em relação às demandas femininas existem, mas são poucos e não vieram fácil.

“Nada cai do céu, além da chuva”, diz um trecho do espetáculo. E é verdade. Mas Carne cumpre a função a que se propõe, ao chamar as pessoas para a reflexão e para a mudança.

CARNE
Direção geral:
Fernando Kinas
Roteiro: Fernanda Azevedo e Fernando Kinas
Elenco: Fernanda Azevedo e Mônica Rodrigues
Execução musical: Luciana Fernandes

Serviço
De 26 de fevereiro a 06 de março. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 18h30. Após as sessões haverá debates com o grupo.
Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1000.
Ingressos: R$ 20, R$10 (meia) ou R$6 (credencial Sesc)

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