CRÍTICA: “CHACRINHA, O MUSICAL” É DE CARNE E OSSO SEM ‘CHAPA BRANCA’

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

chacrinha, o musical
CHACRINHA, O MUSICAL. Foto: divulgação

SÃO PAULO – A Aventura Entretenimento encerra uma trilogia de musicais com Chacrinha. Com a ideia de levar espetáculos exclusivamente brasileiros, a produtora consegue o auge com essa última produção, que está em cartaz no Teatro Alfa.

Elis, a Musical teve como destaque a ótima atuação e transformação da atriz Laila Garrin como protagonista. Merecidamente, a atriz abocanhou prêmios e ganhou a televisão (está em cena na novela das 21h, Babilônia). Já Se eu Fosse Você, o Musical trouxe à cena uma grande comédia (e sucesso) dos cinemas. A famosa história agradou o público, mas não a crítica. Agora, Chacrinha é uma interessante mistura desses dois espetáculos.

CHACRINHA, O MUSICAL
CHACRINHA, O MUSICAL. Foto: divulgação

Tem estrutura, é popular e oferece notáveis atuações dos protagonistas (Stepan Nercessian e Leo Bahia, que vivem o apresentador em fases distintas). No entanto, o que mais encanta em Chacrinha é que Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, responsáveis pelo texto, equilibraram a alegria e a melancolia de um gênio. Em Elis, a Musical, por exemplo, o lado rebelde da interprete brasileira foi morto. Criou-se um conto de fadas e não uma história real. Chacrinha, não. É real.

Tem um toque de humor ácido. Há conflitos, críticas à Rede Globo, a questão da guerra pelo ibope, menção clara à Ditadura Militar (que censurou e matou artistas)…. anárquico como foi o ídolo que retrata. O texto, ainda que não se falasse ser de Pedro Bial, tem autoria óbvia: poesia em cada fala, citações, músicas recitadas – sem compromisso com a cronologia e sim com a história que se conta ali.

O espetáculo dividido em dois atos mostra primeiro Abelardo Barbosa, menino sonhador que não cabia em uma pequena cidade de Pernambuco. Já no segundo ato, é o Chacrinha – O velho Guerreiro da TV – e o conflituoso Abelardo, gênio perdido no palhaço que criou. O espetáculo conta com boa pesquisa musical. Remonta a história do Brasil desde o rádio, mesmo que sem pretensão. São mais de 60 canções nacionais tocadas no palco. E o público embarca de tal forma que participa sem ser ‘chamado’. Interage, grita, responde.

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CHACRINHA, O MUSICAL. Foto: divulgação

O diretor Andrucha Waddington surpreende nesse quesito. Em sua primeira direção teatral consegue aliar a interatividade que o palco permite. Tem improviso e até participação da plateia. E os espectadores também são liberados, no segundo ato, para filmar e fotografar (sem flash) o Cassino do Chacrinha. As Chacretes descem à plateia e passeiam por várias vezes.

A prova de que o público acompanha atento é que quando Chacrinha diz a última frase, todos se levantam e aplaudem, antes que a cortina se baixe. Os espectadores sabem que acabou. E isso é raro.

A cronologia não é perfeita. Em cena, não aparece como Chacrinha saiu do rádio para a televisão, menção necessária. O show à parte fica por conta dos cenários. Os figurinos são bons também, mas o cenário é uma alegoria. No segundo ato, Uma cabeça enorme do Velho Guerreiro, que mexe os olhos, as bananas gigantes… lembram um carro de desfile do carnaval. O cenário por si só é uma homenagem justa ao comunicador que buscava a perfeição. No primeiro ato, as gravuras e os tons pastéis com o grafite remonta figuras, elementos variados e as cidades pelas quais Abelardo passou. A estética é tão poética quanto o texto.

Um musical que narra a trajetória de um gênio, sem firulas, com um elenco em maioria jovem e sem fugir de polêmicas, boas frases e críticas. Representa também um passeio pela nossa música. Chacrinha, o musical não vem para “explicar, (vem) para confundir” e é necessário por isso.

Serviço:

Chacrinha, o musical
Data: de 27 de março a 26 de julho.
Horário: quintas, às 21h, sextas às 21h30. Sábados às 16h e às 20h e domingos às 19h.
Local: Teatro Alfa
End.: Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722 – Santo Amaro – zona Sul – São Paulo.
Preço: de R$ 50 a R$ 180
Tel: (11) 5693-4000 ou 0300 789-3377

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!