Crítica: Coletivo Labirinto reflete espelho político-social latino em espetáculo no porão do CCSP 

Coletivo Labirinto reflete espelho político-social latino em espetáculo no porão do CCSP

SÃO PAULO – O espetáculo Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul não engana a que vem. É para pensar, sem medo de cutucar e incomodar a plateia. Os jovens do Coletivo Labirinto fazem teatro político e corajoso, no porão do Centro Cultural de São Paulo e chama o público para refletir sobre as gerações, escolhas, idiotização do homem e convoca a natureza latina. O texto do também expoente de uma nova geração de dramaturgos, o uruguaio Santiago Sanguinetti, serve para a autocrítica de uma geração perdida em informação, referências e domínio.

A América Latina carrega histórias e dores comuns, os símbolos do domínio americano – como os da Disney – persegue a todos desde sempre. E eles são como nossos, os super-heróis são nossos íntimos e para ser contra tudo, uma camiseta do Che Guevara basta? Entre a ironia, verdades jogadas em meio a referências acadêmicas respeitadas, o espetáculo apresenta Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez e Wallyson Mota dirigidos por Marina Viera em quatro personagens que tentam organizar um atentado contra a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP).

Sem nenhum detalhe que passe despercebido, Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul é permeado por músicas da banda de Porto Rico, a Calle 13. Uma espécie de rap latino lotado de críticas, consciência social e da parte média e baixa da América, onde coabitam Brasil, Uruguai e tanto outros países de agonia e história similar.

O porão do CCSP parece o cenário ideal para se fazer esse teatro de reflexão. Nenhum lugar melhor para revolucionar do que um porão onde se faz arte. Se são os insatisfeitos que mudarão o mundo, esses jovens do Coletivo Labirinto estão colocando isso à plateia com coragem. Mas o que é mesmo revolução ou o que é possível? Em quantas cenas da peça você será capaz de passar incólume? O incomodo permeia o espetáculo, e na crença de que a ironia seja entendida, o público sai transformado e, provavelmente, não vá comer uma pizza, mas deve ligar um Calle 13 no SpotFy para se perguntar: O que eu estou fazendo?

Uma peça boa de reflexão – e que fique claro que o entretenimento tem seu lugar – é dessas que te faz sentir vergonha de algum aspecto seu, causa riso de nervoso e dói em algum lugar. O Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul não traz resposta, mas faz sair da caixa para que pensemos a sociedade, a partir de cada um. Em tempos de falta de diálogo e de verdades absolutas é sem dúvida uma bravura necessária aos nossos tempos a montagem dessa peça.

FICHA TÉCNICA

Autor: Santiago Sanguinetti

Tradução e Adaptação: Coletivo Labirinto e Marina Vieira

Direção: Marina Vieira

Elenco: Abel Xavier, Carol Vidotti, Emilene Gutierrez e Wallyson Mota

Cenografia e Figurino: Marina Vieira e Wallyson Mota

Vídeos e projeções: Laíza Dantas

Sonorização: Gustavo Velutini

Iluminação: Paula Hemsi

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Designer gráfico: Oré Design Studio

Assistente de Produção: Veronica Jesus

Produção: Anayan Moretto e Carol Vidotti

Realização: Coletivo Labirinto

Espetáculo Contemplado pelo Prêmio Cleyde Yaconis

SERVIÇO

Argumento Contra a Existência de Vida Inteligente no Cone Sul, de Santiago Sanguinetti

Centro Cultural São Paulo (CCSP) – Espaço Cênico Ademar Guerra – Rua Vergueiro, 1000, Liberdade – Metrô Vergueiro

Temporada: de 25 de janeiro a 24 de fevereiro (dias 02 e 17 /02 o espetáculo terá apresentação em Libras)

Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 20h

Ingressos: Grátis, distribuídos na bilheteria 1 horas antes da sessão

Classificação: 14 anos

Duração: 85 minutos

Capacidade: 70 lugares

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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