Crítica: Comodismo engoliu a rebeldia da juventude do final dos anos 1960

SÃO PAULO – “Porque os fãs de hoje serão os linchadores de amanhã”, desde que assisti à estreia de Love Love Love, de Mike Bartllet, essa estrofe da música Vai à Luta, escrita na década de 1980 pelo poeta Cazuza, não sai da minha cabeça. Ela sintetiza a triste, embora bastante comum, curva dramática, de mais de quatro décadas, do casal protagonista, Kenneth e Sandra. Os jovens rebeldes, libertários, fãs de rock-and-roll do final da década de 1960 são engolidos pelo deus-fetiche “Consumo”. Seus ideais, suas crenças, cedem espaço ao conforto dos “prazeres-satisfatórios” de sua vidinha classe-média.

Atire a primeira pedra querido “batedor de panela” que desejava a Reforma Social desde não passasse pelo “vexame” de dividir a ponte-aérea com sua doméstica. Não, a peça não retrata, diretamente, os atuais conflitos brasileiros, essa leitura dada do espetáculo mostra apenas que Bartllet é um autor universal, o fato de escrever sobre a família inglesa encontra perfeita identificação com a família brasileira. A falta de amor, a não ser o amor por si mesma, aproxima Sandra de muitas mães que justificam suas desatenções pelos filhos “por trabalharem muito”. A negação de que o filho tem algo de errado faz de Kenneth muito próximo aos pais brasileiros que preferem esconder os problemas debaixo do tapete para não ter que encará-los.

O mais interessante desse texto é a capacidade que ele tem de não evocar “vitimas” ou “culpados”, todos precisam de amor, como diz a música dos Beatles (All Is Need Love), mas uma geração que retrocede ao conservadorismo é capaz de amar e ser amado? Love Love Love levanta tais questões, absolutamente necessárias e urgentes, sem, no entanto, julgar os caracteres dos personagens. Sandra e Kenneth não estão muito decididos se agiram ou agem corretamente com os filhos. Por sua vez, Rose e Jamie escancaram o desconforto da ausência do amor dos pais.

Eric Lenate aposta na direção calcada na teatralidade: os atores estão presentes no palco o tempo todo, inclusive trocam de figurino, modificam o cenário, entre outros, na frente da plateia, sem as preocupações ilusionistas do teatro realista. Outra questão a ser ressaltada é que o diretor aposta na naturalidade (o que é diferente de naturalismo) dos personagens e, graças ao talento do elenco, atinge diferentes níveis de percepção da plateia, que vai desde a gargalhado ao suspiro dolorido.

O elenco -Mateus Monteiro, Alexandre Cioletti, Débora Falabella, Yara de Novaes e Augusto Madeira- é bastante coeso, talvez pela intimidade maior em cena (neste e em outros espetáculos) sobressaem-se Débora Falabella e Yara de Novaes, essa última impagável em sua construção de Sandra.

Fábio Namatame criou um figurino que dialoga muito bem com a cena, ressaltando o despojamento dos jovens Sandra e Kenneth, bem como ressaltando a comicidade dos jovens Rose e Jamie. A cenografia inventiva e pratica de André Cortez dá dinamismo, além de pontuar muito bem a passagem do tempo, à cena.

Completam a qualidade do espetáculo, sem dúvida um dos melhores da temporada 2018, a trilha sonora de L.P. Daniel, além da iluminação de Gabriel Fontes Paiva e André Prado.

Ficha Técnica
Autor: Mike Bartlett
Tradução: Maria Angela Fontes Frederico
Diretor Artístico: Eric Lenate
Elenco: Augusto Madeira, Débora Falabella, Mateus Monteiro, Alexandre Cioletti, Yara de Novaes

Iluminação: Gabriel Fontes Paiva
Trilha Sonora: L.P. Daniel
Cenário: André Cortez
Figurinos: Fábio Namatame
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Love, Love, Love

Teatro VIVO

Até 16/09/2018

Hora: Sexta 20h |Sábado 21h |Domingo 18h

Duração: 110 minutos

Idade: 16 anos

Cliente Vivo Valoriza

tem 50% de desconto*

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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