CRÍTICA: CONTOS PARA O NOSSO TEMPO E FEITOS PARA NÓS

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar". Foto: Valérie Mesquita
“Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar”. Foto: Valérie Mesquita

SÃO PAULO – A coragem de ir para uma sala de teatro viver de bilheteria é fator raro. Hoje, sem algum apoio de lei que garanta o patrocínio poucos se arriscam ou conseguem um espaço nas salas paulistanas. É com a audácia de enfrentar esse paradigma que a Cia Os Barulhentos apresenta Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar. O espetáculo fica em cartaz até 31 de maio, no Espaço Elevador, e figura entre as boas surpresas da cena do primeiro semestre.

O público acompanha 15 histórias de peças curtas do autor romeno Matéi Visniec, que estão reunidas no livro Cuidado com as velhinhas carentes e solitárias. Visniec é um captador de fenômenos da pós-modernidade e consegue transitar entre os mais diversos temas: do amor, à barriga de aluguel, aos imigrantes e à tecnologia. É sensível também aos maus da nossa alma e trata da glória e da solidão.

O diretor Rodrigo Spina consegue transmitir toda a vivacidade de Visniec em Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar. Seguindo um conselho do próprio autor, de não usar o livro na ordem e criar em cima, ele funde as peças uma nas outras. Costura da sua maneira a obra e usa recursos do mais variados: tem blackout total e até a voz do google tradutor como personagem.

Consegue passar a agilidade e caótico para o palco. É uma mistura de sensações e de experiências em uma peça só. No mesmo palco habitam uma lanchonete e uma varanda em ruínas. O cenário é, inclusive, o mais caótico. Roupas ao chão e ambientes convergem.

O cinza que preenche todo o cenário, e os atores também pintados de cinza, com roupas cinzas ou pretas são o primeiro choque do espetáculo. O cenário de Moshe Motta e o figurino Camila Fogaça são impactantes. É como uma pintura das grandes cidades, por exemplo, São Paulo. Ou como entrar em contato com o escuro das nossas almas. A luz, assinada por Lui Seixas, contribui para essa atmosfera.

Aliás, o único colorido do cenário ou do teatro – que também é cinza e tem poltronas pretas – é a plateia, refletida em um enorme espelho ao fundo do palco. Sente-se cada reação das histórias contadas. Em cada sonho apresentado e destruído, na solidão, em mães e filhas…. No caótico da cidade ou no deserto que cada ser vivo habita. Entre medos e heróis de guerras, a plateia pode se ver em cena.

"Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar". Foto: Valérie Mesquita
“Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar”. Foto: Valérie Mesquita

A trilha sonora no melhor estilo de recorte é bastante presente no espetáculo e variada. Tem clássico e até música de tribo australiana. Os tons surrealistas das histórias e referências do teatro do absurdo em meio a uma poesia do contemporâneo prende o espectador por quase duas horas de espetáculo.

Visniec viveu uma ditadura em seu país e esse tema é presente em cena. Mas as amarras da democracia também não saem incólume em Aqui Estamos Com Milhares de Cães Vindos do Mar.

Uma história de várias facetas, de todos os lados, de morte e vida com todos os paradoxos.

O autor consegue algo que o historiador Eric Hobsbawm falava ser muito difícil: analisar o recente, o próximo. E, no Brasil, o romeno está bem representado pela criatividade de Os Barulhentos.

Ficha técnica:

Dramaturgia: Matéi Visniec

Grupo: os Barulhentos

Direção: Rodrigo Spina

Figurino: Camila Fogaça

Cenário: Moshe Motta

Luz: Lui Seixas

Elenco: Cadu Cardoso, Clara Rocha, Domitila Gonzalez, Gustavo Pompiani, Lia Maria, Lucas Horita, Lucas Paranhos, Marina Campanatti, Murilo Zibetti, Pedro Camilo

Assistência de Direção: Thalita Trevisani

 Serviço:

Espaço Elevador – Rua Treze de Maio 222. Bela Vista – São Paulo – SP. Telefone: (11) 3477 7732

Temporada: de 14 de março a 31 de maio. Sábados, às 20h, domingos, às 19h
Preço: R$ 30,00
Duração: 110 minutos
Censura:14 anos
Capacidade: 50 lugares

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!