CRÍTICA: A CULPA É DE MEDEIA OU DE CREONTE?

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Quando pensamos em Medeia, do trágico grego Eurípides, fica difícil conceber uma adaptação capaz de conservar a força da personagem-título, mas o fato é que Medeia: 1 Verbo, escrita por Sérgio Roveri, além de conservar a densidade da heroína, ao apropriar-se do mito, transfere as mãos do destino para as mãos do rei Creonte. Dirigida por Marco Antonio Rodrigues e em cartaz no Galpão do Folias, é impossível sair do teatro sem a dúvida do real autor do infanticídio.

Diferente do modelo grego notado por Aristóteles (unidade de tempo)  a ordem cronológica dos fatos não segue a lógica linear, começando pelo prólogo em que, no tempo atual, o próprio Eurípedes (Gabriel Esteves de Castro), após mais de dois milênios de sono eterno, retorna à Corinto para reescrever a saga de Medeia, já que Creonte, o todo-poderoso Rei, desaprova o final conhecido: em que dá mais um dia para a heroína e, nesse fatídico dia, ela consegue vingar-se envenenando as vestes da filha do Rei, matando, também, seus dois filhos com Jasão e fugindo no Carro do Sol. O que se vê é Medeia chegando a um presídio acusada de ter matado os filhos com um punhal. Detalhe: o corpo das vítimas sumiu, só resta a arma do crime e a acusação de Creonte que ecoa pelos quatro cantos.

O cenário de Flávio Tolezani, com grades duplas de ferro que mantém as personagens naquela claustrofóbica prisão, o tom soberbo de Creonte, Dagoberto Feliz em excelente composição, e a catatonia de Medeia (Nani de Oliveira) remetem os espectadores aos sombrios e cruéis porões da Ditadura Militar. Medeia parece ter passado por uma sessão de tortura e, confusa pela pressão que sofreu, tenta reconstruir suas memórias, invertendo a ordem dos fatos: o meio da peça é o flashback do início da história. Outro dado remissivo aos Anos de Chumbo se concentra na figura de Creonte: a começar pelo figurino (Fernando Fecchio) semelhante a um traje de militar de alta patente, ao cinismo acentuado na interpretação de Dagoberto, e, por fim ao “desaparecimento” do corpo das vítimas, além da escolha de um bode expiatório, no caso a própria Medeia. Será por isso que Creonte teme tanto as palavras de Medeia?

O casal pivô  do início da tragédia, Jasão (Zé Geraldo Jr.) e Gláucia (Ana Nero) – a filha de Creonte -, receberam tintas originais que fazem das criaturas forjadas por Sérgio Roveri tipos interessantes e de fácil identificação contemporânea: Jasão é o protótipo do alpinista social, cuja sede de poder não  o impede de abandonar filhos e mulher, nem de aturar o ciúme doentio e infantil de Gláucia, a mimada e insegura filha do Rei.

 

A MEDEIA DE NANI DE OLIVEIRA

Como o orixá do candomblé Iansã, a Medeia concebida por Nani de Oliveira é senhora dos ventos e das tempestades, prenhe de uma fúria forjada pela natureza. Um olhar seu, de tão faiscante, emana todos os raios possíveis,  toda a indignação de quem paga um crime que não cometeu

Numa construção que demonstra bem o conceito de contenção e controle, proposta por Marco Antonio Rodrigues, em sintonia estética com as teorias do russo Constantin Stanislávski, do início do século XX , o diretor encontrou o caminho mais verossímil para enfatizar a proposição de Sérgio Roveri em sua original leitura de Medeia: teria mesmo essa mulher assassinado seus filhos?

A Medeia de Nani de Oliveira está detrás da cela que ocupa a extensão traseira do palco, esse encarceramento escolhido pela heroína quando deixou sua Cólquida natal para seguir Jasão, o homem que ama, e que, agora, é o Dique que enforma a tempestade que cada respiração sua, cada dedilhar grave, firme e sensato de suas palavras, anuncia.

 

Belo reencontro de Marco Antonio Rodrigues com o Grupo Folias D’ Arte, que deixou  há quatro anos, o diretor oferece um espetáculo enxuto e capaz de propiciar a reflexão sobre a verdade real e a verdade fabricada, de interesse do status quo.

 

Ficha Técnica

 

Direção: Marco Antonio Rodrigues. Texto: Sérgio Roveri. Elenco: Nani de Oliveira (Medeia), Dagoberto Feliz (Creonte), Zé Geraldo Jr. (Jasão), Gabriel Esteves de Castro (Eurípides), Ana Nero (Gláucia e coro), Rafa Penteado (filho de Medeia e coro), Fábio Joaquim do Vale (filho de Medeia e coro) e Juliana Grave (coro). Assistente de direção: Humberto Vieira. Design de luz e som: Tulio Pezoni. Cenário: Flavio Tolezani. Figurino: Fernando Fecchio. Produção Executiva: Inês Teixeira. Realização: Folias D’Arte

 

Serviço

Medeia: 1 Verbo.

Onde: Galpão do Folias, Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília, tel.: 3361-2223. Metrô Santa Cecília. Temporada: Até 30 de novembro. sextas e sábados às 21h e domingo às 20h. Ingressos: R$ 40 inteira e R$ 20 meia-entrada. R$ 10 para os moradores de Santa Cecília.  Estacionamento com convênioLotação: 96 lugares. Classificação etária: 14 anos. Reservas pelo telefone:  (11) 3361-2223.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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