CRÍTICA: DEMOCRACIA OU AS COISAS NÃO MUDARAM TANTO ASSIM?

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

SÃO PAULO – Ano passado, quando esta versão da Ópera do Malandro – texto de Chico Buarque escrito em 1978 – estreou, dezenas de manifestações nos trouxeram à recordação os 50 anos do Golpe Militar no Brasil (1º de abril de 1964). Uma das liberdades que nos foram extirpadas, a de expressão, trouxe a terrível Censura, sobretudo após o AI-5 (1968), obrigando aos artistas a garimpar suas palavras para camuflar o que desejavam comunicar, já que se o fizessem de maneira direta seriam silenciados.

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

A sagacidade poética de Chico Buarque não o impediu, no entanto, de ser uma das mais ativas e politizadas vozes na resistência contra o Regime. Com menos de três décadas da volta à democracia e o fim da censura, a leitura fidedigna da peça pela Cia. da Revista revela que o musical conserva a urgência temática do tempo em que estreou (1978), porque, em lugar da Censura Militar, vivemos numa ditadura financeira, em que a autocensura nos silencia.

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

Inspirado na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht que, por sua vez, se inspirou na Ópera do Mendigo, de John Gay, Chico Buarque ambientou a fábula da Ópera do Malandro nos anos de 1940, em pleno Estado Novo Getulista (de quem os militares eram contrários e cuja aversão pela defesa de direitos trabalhistas pelos donos do capital, inclusive os donos de poderosos meios de comunicação, deu aos militares apoio das castas burguesas e mais tradicionalistas para forjarem seu Golpe), trazia, entre outras críticas, às péssimas condições dos direitos trabalhistas, ao declínio do casamento pequeno burguês, à hipocrisia social, aos improváveis conchavos que configuram interesses outros, enfim,  apesar de muitas conquistas e avanços sócio-políticas a que vive o Brasileiro neste 2015, as críticas feitas à sociedade de 1978 pelo texto ainda encontram seus pares em problemas contemporâneos, sem a necessidade de se alterar uma só vírgula para arder nossas feridas em época de democracia (?).

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

Fernandes de Duran (papel de Raul Figueiredo) é o protótipo do capitalista selvagem, vive da exploração de suas funcionárias – prostitutas que, em troca de alguns “acessórios” (roupas, sapatos, bundas e peitos postiços) e de local para exercerem seu ofício, pagam porcentagens que reduzem seus salários à quantias que não garantem ao menos alimentação decente;  arcam com cláusulas abusivas de contrato que são obrigadas a assinar (mesmo aquelas que mal sabem ler) e, se desejam reivindicar melhores condições de trabalho e vida mais digna, são humilhadas e descartadas feito comida vencida (como se ilustra no caso de Dóris Pelanca).

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

Esse modo de ‘ditadura do silêncio’ empregado pelo patrão Duran às suas funcionárias prostitutas, ainda é conhecido hoje. Em qualquer escritório por aí, nos chega a notícia de que um superior, cujas ordens são contrariadas por uma observação – mesmo que pertinente – de um subalterno a si, não tarda a demitir o opositor.

ÓPERA  DO MALANDRO
ÓPERA DO MALANDRO

Vitória (vivida por Heloísa Maria com minimalista transição de personalidade –   que vai do cinismo sórdido, passa pela defesa da conduta hipócrita e alcança seu lado mais humano revelando seu medo) fica decepcionada por Teresinha (Érica Montanheiro), sua única filha, educada conforme os mais finos tratos burgueses, se casar com o contrabandista Max Overseas (Bruno Perillo) não por ela temer que sua filha sofra ao lado de um contraventor, mas porque “agora qu’eu não serei mais convidada para os eventos da alta classe”, conforme diz.

Quando ela descobre que a filha casou por amor fica chocada: “Se você ama uma pessoa é claro que você não vai se casar com ela…” completa usando seu casamento como exemplo “…a gente nem ama nem desama…”, ou seja, é defensora do casamento por conveniência, uma “parceria”. Eis o seio que alimentou o ideário de Lúcia. Eis o fio que nos coloca a questão: Teresinha ama mesmo Max ou aproveita as ameaças de seu pai para afastar o marido dos negócios e liderar os contrabandistas?

ÓPERA  DO MALANDRO
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Já Duran, ao Descobrir a amizade entre Max e o delegado Chaves (Adriano Merlino) arquiteta sua vingança de forma como são feitas as atuais “delações premiadas”, ou seja por meio de declarações que visam tão somente manchar a imagem de alguém em proveito próprio, ancorado em uma imprensa que divulga fatos sem contextualizá-los.

 

A força opressora de Duran faz com que as prostitutas, suas funcionárias, participem da “passeata-denúncia” e o cachê oferecido aos desvalidos para participarem da mesma, fazem-nos refletir sobre a real essência das manifestações.

Max Overseas (Bruno Perillo) também oscila entre o amoroso enganado pela dubía Teresinha, o cafajeste que faz Lúcia (Natália Quadros) roubar seu pai e tornar-se mãe solteira, até revelar sua fragilidade.

A encenação de Kléber Montanheiro – que também dá vida à Geni – enfatiza o tom polifônico da obra, ou seja, o enredo revela apenas o desenrolar dos fatos, o público é dono da mensagem final, cabe a cada espectador, com base em seus próprios conhecimentos e ideologias, completar a “sinfonia” apresentada. O triângulo Max-Teresinha-Lúcia, por exemplo, permite uma série de leituras: Teresinha ama de verdade Max ou ele é o brinquedinho a satisfazer os desejos da burguesinha mimada? Max é o enamorado por excelência, o cafajeste mulherengo ou o malandro que sabe manipular as mulheres a seu bel prazer? Lúcia e Teresinha duelam, em canção (O Meu Amor), por amor a Max, para demarcar território ou por mera rivalidade e vaidade feminina?

Essa ambiguidade toma conta das prostitutas – Dorinha Tubão – Gisele Valeri, Doris Pelanca – Daniela Flor, Fichinha – Bruna Longo, Mimi Bibelô – Gabriela Segato, Shirley Paquete – Luiza Torres, Jussara Pé de Anjo – Nina Hotimsky – que, apesar de conservarem certa “ingenuidade” devido às condições precárias de educação que se lhe apresentaram, fator determinante para ficarem caladas pelos formadores de opinião e seduzidas por promessas, podem simplesmente estarem seduzidas por ganância; assim como os homens contrabandistas do bando chefiados por Max Overseas – Barrabás – Pedro Henrique Carneiro, Johnny Walker – Paulo Vasconcelos, Big Ben – Pedro Bacellar, General Eletric – Gabriel Hernandes, Phillip Morris – Lino Colantoni – que mudaram de lado por se ressentirem com os maus tratos recebidos por Teresinha Overseas ou, simplesmente, por serem regidos pela ideologia oportunista. Por fim, Kleber colore sua Geni com tintas densas e ambíguas. Ela está bronqueada por Max não respeitar seus sentimentos?, contrariada pelo casamento entre Max e Teresinha?, extorquindo dinheiro de Duran e Chaves para dar informação  (“delação premiada” com vingança aos detentores do poder, já que os atinge por onde lhes ´mais doloroso, os bolsos)?.                                                                                                                                                            A Ópera do Malandro da Cia. da Revista acena caminhos, pontos que provocam reflexões e exige, assim, plena contribuição do público.

Ficha Técnica: 
Direção: Kleber Montanheiro
Direção Musical: Adilson Rodrigues
Iluminação: Wagner Freire
Cenário e Figurino: Kleber Montanheiro

Elenco Cia da Revista: Adriano Merlini, Bruna Longo, Daniela Flor, Gabriel Hernandes, Gabriela Segato, Heloisa Maria, Kleber Montanheiro, Luiza Torres, Natália Quadros, Nina Hotimsky, Paulo Vasconcelos, Pedro Henrique Carneiro, Pedro Bacellar.

Atores convidados: Bruno Perillo, Flavio Tolezani, Erica Montanheiro, Gisele Valeri, Mateus Monteiro, Lino Colantoni, Raul Figueiredo.
Operador de luz: Rodrigo Oliveira
Operador de Som: Monique Salustiano
Serviço:
Sábados, Domingos e Segundas às 20h.
No Espaço Cia da Revista
Alameda Nothmann, 1135.
R$80 inteira e R$ 40 meia entrada
Ar condicionado
Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.