Crítica de Luís Francisco Wasilewski: “Despertar” é uma tragicomédia atual-

 

EM REDE – Quando os textos de Tutta casa, letto e chiesa, de Dario Fo e Franca Rame aportaram no Brasil na interpretação de Marília Pêra houve uma comoção teatral. Dirigido por Roberto Vignati, o espetáculo batizado de Brincando em Cima Daquilo foi um dos maiores sucessos da longa carreira teatral da atriz. Afinal, naquele tempo em que o Brasil recém saía de uma ditadura, começavam a surgir as pautas feministas como tema urgente a ser debatido. Até os meios de comunicação de massa descobriram a sua importância, com a criação do programa TV Mulher, veiculado na Rede Globo.

Neyde Veneziano é nossa maior especialista na obra de Fo e Rame. Seu pós-doutorado foi um estudo sobre o teatro de Fo e resultou no livro A Cena de Dario Fo, obra imprescindível para quem deseja conhecer a metodologia de criação do artista, detentor do Prêmio Nobel de Literatura de 1997. Além do aspecto teórico, Veneziano assinou duas excelentes direções de textos do autor. Faço referência a Um Dia(Quase) Igual aos Outros, encenada em 2009 e Mistero Buffo, que estreou em 2012.

Agora, em tempos pandêmicos, a diretora e Carla Candiotto nos apresentam de forma virtual O Despertar, um dos textos que fazem parte de Tutta casa, letto e chiesa.Uma oportuna e excelente escolha. Se na década de 1980 as questões feministas tratadas em Brincando em Cima Daquilo eram relevantes, hoje voltaram a ser. Basta espiar as estatísticas do aumento dos casos de agressões a mulheres no Brasil, depois do começo da pandemia.

 O Despertar nos mostra uma mulher obrigada a dar conta da criança pequena, do trabalho em casa e fora dela, bem como da opressão do marido. Veneziano e Candiotto fizeram excelente parceria. Se no começo da peça rimos da atribulada vida que a personagem leva, quando se aproxima o final do espetáculo, vamos sentindo empatia( a palavra da moda) e o espectador experimenta um riso amargo pela tristeza e sofrimento carregado por aquela mulher. Toda a ação da peça está delimitada tendo ao fundo uma cozinha cenográfica, bela criação de Fábio Namatame, que também assina os figurinos da montagem.

Neste tempo em que vivemos, sob o jugo de um governo autoritário, é bom revisitar a obra de Fo e Rame. O Despertar nos mostra o quão necessário é, ainda, a representação em cena das questões que debatem machismo e feminismo.

 

Roteiro:
O Despertar
. Texto: Franca Rame e Dario Fo. Tradução, adaptação e direção: Neide Veneziano. Elenco: Carla Candiotto. Cenografia e figurino: Fabio Namatame. Iluminação: André Lemes. Fotografia e captação de imagens: Rodrigo Veneziano.

Serviço:

Gravado no Teatro Giostri, transmissão online gratuita: You Tube Veneziano Produções. Horários: de sexta a domingo às 20h. Duração: 30 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 20 de junho.

Luís Francisco Wasilewski

Pós-Doutor pelo Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ Mestre e Doutor em Literatura Brasileira pela USP Tem artigos sobre teatro publicados em periódicos como Zero Hora, Correio do Povo, Aplauso Brasil e a revista Quero Teatro Autor do livro Isto é Besteirol: o Teatro de Vicente Pereira, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2010. Contato pelo e-mail:fran_theatro@yahoo.com.br