Crítica: A encenação visceral de Maria Alice Vergueiro

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

OS QUE VEM DA MARÉ
OS QUE VEM DA MARÉ

SÃO PAULO – Os mais camuflados e aparentemente banais conflitos de Os Que Vem da Maré, texto de Sérgio Roveri, na leitura da atriz e encenadora Maria Alice Vergueiro ganha tintas viscerais de  um inconsciente que grita em voz miúda e poética. A pequena pérola que está em cartaz quartas e quintas-feiras, evoca a pulsação surrealista dentro do ousado projeto 3xRoveri, em comemoração às bodas de prata d’ Os Satyros, que traz o mesmo elenco e o mesmo texto em três lentes  estéticas distintas.

Quando inicia a cena, os figurinos escuros, ricos em babado – assinados por Telumi Hellen; a atmosfera sombria, sólida ressaltadas pela luz de Flávio Duarte e trilha de Luciano Chirolli; a solidão maciça, os diálogos vazios de lógica e plenos de gritos mudos; enfim, há evidências de que se tratam de opções estéticas que privilegiam o jogo entre o que é dito e o que é subtexto, jogos poéticos que fazem das palavras apenas detonadoras de uma pluralidade de novas imagens.

É possível que nos lembremos das mulheres fortes e obtusas de García Lorca. É possível que se pense em Assim Que Passem Cinco Anos, flerte de Lorca com o Surrealismo. É possível  vislumbrar uma tela do  surreal pintor Rene Magritte. É possível lembrar da comunicação atravessada e gutural de A Cadeiras, de Eugène Ionesco. É possível pensar no ritmo e forma da voz como evoca Artaud. Enfim, cabe às referências que o espectador traz consigo, para que preencha as lacunas propositais que Sergio Roveri borda e que o leitor do espetáculo arremata na singela trama de Os Que Vem da Maré.

OS QUE VEM DA MARÉ
OS QUE VEM DA MARÉ

Capitaneando a nau satyriana formada pelos atores Robson Catalunha, Suzana Muniz, Dione Leal e Ricardo Pettine, Maria Alice Vergueiro consegue a destreza que traz Os Satyros à luz de seu Grupo Pândega.

 

3XROVERI – OS QUE VEM DA MARÉ

FICHA TÉCNICA

Texto: Sérgio Roveri

Direção: Maria Alice Vergueiro, Fernando Neves e Rodolfo García Vázquez

Elenco: Robson Catalunha, Suzana Muniz, Dione Leal e Ricardo Pettine

Assistentes de direção: Carol Splendore e Luciano Chirolli, na montagem de Maria Alice Vergueiro; e Marcelo Thomáz, na versão de Rodolfo García Vázquez

Cenário: Marcelo Maffei e Pablo Benitez Tiscornia

Figurino: Telumi Hellen

Trilha Sonora: Luciano Chirolli, na concepção de Maria Alice Vergueiro; Pedro Zurawski, para a montagem de Fernando Neves; e Ivam Cabral, na versão de Rodolfo García Vázquez

Desenho de Luz: Flávio Duarte

Produção: Cia. de Teatro Os Satyros

Projeto patrocinado pela Funarte, através do Prêmio Myrian Muniz

Onde: Espaço dos Satyros Um

Quando:

Terças: 20h, encenação de Rodolfo García Vázquez; 22h, encenação de Fernando Neves

Quartas: 20h, encenação de Fernando Neves; 22h, encenação de Maria Alice Vergueiro

Quintas: 20h, encenação de Maria Alice Vergueiro; 22h, encenação de Rodolfo García Vázquez

 

Duração: 60 minutos

Ingresso: R$ 20,00; R$ 10,00 (estudantes, terceira idade e classe artística); e R$ 5,00 (moradores da Praça Roosevelt)

Capacidade: 40 pessoas

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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