SÃO PAULO – Fui à estreia da peça A Carruagem de Berenice, no teatro do Mube, e antes de começar o espetáculo um áudio orientou o público a deixar os celulares ligados para, assim, fotografar e compartilhar imagens nas redes sociais com hashtags associadas à produção.

Observei muitas mães com celulares nas mãos, filmando e tirando fotos durante todo o espetáculo. Os menorzinhos não se manifestavam a tantos cliques. Pensei sobre a situação vivenciada durante a peça. Na saída uma diretora me falou que o filho dela gostava assim. Tenho minhas dúvidas. Afinal, até onde essa relação entre público e celulares no meio da peça é interessante?

Começa o espetáculo, que tem cenário virtual. Tudo parece se desenrolar num contexto em que o público fica dividido entre fazer fotos, assistir à montagem e torcer pelo sonho da pequena Berenice, que tem apenas oito anos de idade, mas já enfrenta questões difíceis, porém comuns, ao universo infantil. Numa abordagem um pouco violenta para o meu gosto, com cena feita em off, a menina escuta os pais brigando.

A trama gira em torno da história de Berenice e de seu encontro com a moça da carruagem. Por querer fugir de estereótipos, a menina sofre bullying na escola. Ela também vê seu grande amigo mudar de cidade e questiona conceitos da vida e da morte ao perder seu animal de estimação. Nada incomum ou improvável.

E esse espetáculo traz para si o desafio de abordar, com naturalidade e diversão, questões que normalmente trariam constrangimento, mas que são parte da vida, afinal. Essa mensagem é justamente o mote do espetáculo, idealizado para mostrar que há leveza nos desafios, e que sofrer é um sentimento tão natural como se alegrar.

Berenice enfrenta suas primeiras situações difíceis com a ajuda da moça da carruagem, uma figura misteriosa que se espanta com a espontaneidade da menina. Juntas, elas partem em uma aventura que levanta noções de geografia, espaço, tempo e liberdade de expressão. A carruagem é uma máquina do tempo e a moça vem do futuro, num processo de terapia representado por essas viagens ao passado, onde as dificuldades são oportunidades de aprendizado.

O momento poético da montagem está centrado nas músicas de Zeca Baleiro, que percorrem o espetáculo com muita criatividade e musicalidade. Também permeia a peça o pensamento sobre a relação entre as mídias e as produções infantis. Essa é uma discussão e tanto, que deixo para o leitor dar a sua opinião e contar sua experiência nos teatros paulistas.

 

A CARRUAGEM DE BERENICE

Auditório MuBE

Rua Alemanha 221, Jardim Europa

São Paulo, SP

Horários

de 11/08/2018 a 14/10/2018

Sáb

das 16h00 às 16h55

Dom

das 11h00 às 11h55

Telefone(11) 2594-2601

 

Colunista e crítica de teatro infantil e juvenil.

Pamela Duncan, especial para o Aplauso Brasil (pameladuncandiretora@gmail.com)