Crítica: Escombros revela a cidade que muda e a memória que todos carregam

SÃO PAULO – O desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em São Paulo, fez os olhares se voltarem para a ocupação irregular da cidade. As pessoas se uniram para acolher e ajudar. Em 2016, o filme Aquarius de Kleber Mendonça Filho fez sucesso internacional ao trazer a história de uma jornalista aposentada que tem seu lar de uma vida toda ameaçado pelos interesses de uma incorporadora. Seja na ficção ou na realidade, a destruição do nosso entorno nos ronda. E é esse tema que o grupo Sobrevento traz como espetáculo mais recente da companhia. Lúdico e emocionante, envolve a plateia entre lembranças e reflexões.

O Grupo Sobrevento tem um importante trabalho na região do Brás, onde atua. Dá para ver um pouco do bairro que se transforma com os imigrantes ali no espetáculo e também muito do próprio grupo que há oito anos se debruça pelo Teatro de Objetos. Em Escombros são os objetos perdidos, achados e quase imortais que contam as memórias dos personagens e dão dimensão a tudo que se perdeu. É um espetáculo estudado em detalhes e isso fica claro assim que a plateia entra no espaço.

Com cadeiras que dividem a plateia de um lado a outro, o publico entra já no cenário. Um retrato de escombros, tal qual o nome da peça. Terra, pedra, madeira, mesa e objetos espalhados de forma milimétrica e ajudar a contar a história. Os objetos usados em tamanho natural conversam com esse cenário e carrega o tempo. Uma parede carregada nas costas, pode denunciar que uma casa não há mais ali. Uma janela o horizonte ou a vista daquilo que não se quer ver. Um disco de vinil é o apego da nossa genética e daquilo que não usamos, mas guarda história e memória. Assim, Escombros envolve a plateia nos seus personagens objetos e nos humanos, que narram tudo.

A iluminação de Renato Machado e o figurino de João Pimenta, com a música criada por Arrigo Barnabé faz o espetáculo trabalham em conjunto como orquestra para que o público embarque aos poucos em meio aos objetos da ruína. Tudo em evolução. A luz que vai caindo, os figurinos brancos que dão lugar ao bege cheio de terra e a trilha puxada mais para emoção até culminar na canção final composta por Geraldo Roca e interpretada por Márcio de Camillo.

A direção de Luiz André Cherubini e Sandra Vargas, que também assina a dramaturgia, trabalha em conjunto com os elementos e com os outros atores em cena também juntos com a dupla:  Maurício Santana, Sueli Andrade, Liana Yuri e Daniel Viana.

Escombros é uma poesia sobre o nosso tempo e o que cada um carrega. Daquilo material e imaterial de que somos feitos. Ao final, a plateia impactada, alguns olhos marejados, são a verdadeira crítica que poderia se fazer do espetáculo. Um conjunto emocionante, resultado de uma pesquisa e sem o hermético. Um exercício do que se pode fazer um bom conjunto teatral – ao revelar algo fora e dentro do público. E aos que brandam que teatro é para poucos e é caro, Escombros está aí gratuito até dia 27 de maio.

Ficha técnica

Criação: Grupo Sobrevento/ Direção: Sandra Vargas e Luiz André Cherubini/ Dramaturgia: Sandra Vargas/ Elenco: Sandra Vargas, Luiz André Cherubini, Maurício Santana, Sueli Andrade, Liana Yuri e Daniel Viana/ Cenografia: Luiz André Cherubini e Dalmir Rogério/ Adereços: Sueli Andrade e Liana Yuri/ Iluminação: Renato Machado/ Figurino: João Pimenta/ Música original: Arrigo Barnabé/ Canção final composta por Geraldo Roca e interpretada por Márcio de Camillo/ Assessoria de imprensa: Márcia Marques – Canal Aberto

SERVIÇO

ESCOMBROS

De 21 de abril a 27 de maio. Sábados e domingos, às 20h. Entrada franca. Não recomendado para menores de 16 anos.

Espaço Sobrevento – Rua Coronel Albino Bairão, 42 – próx. Metrô Bresser-Mooca e Viaduto Bresser. Tel. 11-3399-3589.

70 lugares. Reservas: info@Sobrevento.com.br

Realizado pela 31a. edição do PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO AO TEATRO PARA A CIDADE DE SÃO PAULO


Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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