CRÍTICA: “ESPERANDO GODOT” OU SOM E FÚRIA OTAKU

godotFernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Grupo Garagem 21 relê Esperando Godot a partir da harmonização de elementos diversos, que vão desde o Teatro Nô às HQs japonesas e europeias, passando por clowns e pelo o humor involuntário de Kate Bush. A montagem ocupa o Viga Espaço Cênico até o dia 18 de dezembro.

Só neste semestre, vi estrear três montagens diferentes de Esperando Godot, obra das mais (senão a mais) conhecidas de Beckett. Sincronicidade, inconsciente coletivo ou coincidência, há de se pesar o fato de que existem pelo menos três elencos que se debruçaram sobre este texto muito recentemente.

A mim, parece que há algo de sintomático no movimento de tantas pessoas em direção ao absurdo pessimista de Beckett, talvez para encontrar algum sentido no meio da confusão contemporânea. Ou para assumir a confusão e a falta de sentido. Ou para propor uma nova possibilidade de olhar para o que está exposto aí.

Em pesquisa desde fevereiro de 2014, a montagem do Grupo Garagem 21 estabelece, desde o início, uma atmosfera marcadamente onírica e febril, investindo no estranhamento causado pela construção vocal e corporal dos personagens, dos tempos dilatados, do uso recorrente do silêncio e de uma luz colorida que tinge a cena como um desenho animado underground.

A soma das partituras corporais rigidamente marcadas, da intensidade da iluminação e de suas cores, dos momentos de suspensão, das escolhas de maquiagem e de figurino e da pesquisa de uma voz caricata dão à montagem a peculiar característica de reler Beckett pelas lentes da cultura pop atual, principalmente a otaku. A impressão é que estamos vendo a corporificação de um mangá, ou assistindo a um anime live action. O efeito torna-se ainda mais forte em Lucky, graças à postura inclinada, ao figurino e ao uso da peruca sintética platinada: a sensação é que se trata de um cosplay de Lucky, visitante de alguma edição do Anime Friends.

Aliado à estética inesperada, o trabalho vocal dos atores aprofunda a estranheza do espetáculo. A palavra não é menosprezada, mas é tratada num ritmo próprio, numa entonação específica e num certo esvaziamento de sentido que, embora acrescente uma camada de incomunicabilidade às relações dos personagens, também torna um pouco mais difícil para a plateia a compreensão de algumas passagens. Dadas num fluxo contínuo, de modo veloz e com uma pontuação peculiar, em algumas falas as palavras se colam uma na outra, exigindo mais atenção do espectador que deseje entendê-las perfeitamente.

Configura-se assim um desafio duplo à plateia: primeiro, é preciso entender o que o ator disse e, depois, quais são as metáforas atrás das palavras de Beckett. Embora seja um exercício interessante e que reverbere questões presentes na dramaturgia original, o jogo pode se tornar um pouco cansativo ao longo das 2h20 do espetáculo.

A versão de Cesar Ribeiro parece ecoar a clássica citação de Macbeth, de que “a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Abrindo e fechando o espetáculo com rocks pesados altíssimos, e estabelecendo um registro de voz quase gritado aos personagens, o diretor injeta assim uma certa dose de raiva natimorta em Estragon e Vladmir, reforçando a patética incapacidade deles de romper o fluxo insatisfatório da vida que levam. A montagem parece questionar a afirmação recorrente dos personagens, de que não há nada a se fazer.

É um jeito interessante de se reimaginar a espera.

Esperando Godot
Texto: Samuel Beckett
Direção: Cesar Ribeiro
Elenco: Paulo Campos (Estragon), Ulisses Sakurai (Vladimir), Paulo Olyva (Pozzo) e Cadu Leite (Lucky e Menino)
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Cenografia e figurinos: Telumi Hellen
Iluminação: Carmine D’Amore
Trilha sonora: Cesar Ribeiro
Fotos e filmagem: Nelson Kao
Design gráfico: Diego Bianchi
Colaboração: Maria Fernanda Vomero e Kenn Yokoi
Assessoria de imprensa: Canal Aberto
Realização: Garagem 21

Serviço
De 05 de novembro a 18 de dezembro de 2016 e
De 21 de janeiro a 19 de fevereiro de 2017
Sábados às 20h e domingos às 19h
Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia)
Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1.323 – Pinheiros/SP