Crítica: “Eu/Telma” é exemplo de criatividade e bom teatro feito em espaço não convencional

SÃO PAULO – A Aliança Francesa do centro da cidade São Paulo tem um belo e histórico teatro em seu prédio, mas é em uma sala de aula em que Eu/Telma é encenado. O solo da atriz Nicole Marangoni sem direção, feito a partir da sua vivência com o luto e da colaboração – ou provocação cênica de outras pessoas do meio artístico – como ela mesma define – é um exemplo como o bom teatro pode ser feito em qualquer espaço e que, ao mesmo, tempo isso não significa ser de qualquer jeito.

O ponto de partida para a criação do solo foi uma oficina de atuação, da qual Nicole participou em 2013, enquanto passava pelo processo de luto por seu pai. Na ocasião, foi sugerido como estímulo de pesquisa para a atriz o desenvolvimento de uma personagem cuidadora de idosos. Desde então, Marangoni vem desenvolvendo uma narrativa ficcional (Telma) pautada por uma situação autobiográfica – os cuidados de fim de vida de seu pai.

Nicole se revela completa em cena: faz a cuidadora de idosos e encena outros personagens com domínio da cena. A sala de aula transformada em palco confere proximidade para as cenas. Alguns elementos e um projetor criam a atmosfera que atriz precisa para contar sua história.

Flores, aos mortos e como um símbolo do renascimento dão beleza singela ao fazer imaginar. Até a porta lateral da sala é usada com sabedoria para servir a personagem. Nada ali parece simples e tudo é ao mesmo tempo de uma simplicidade rara.

Com as provocações cênicas de Evinha Sampaio, Janaína Leite, Naiene Sanchez e Rhena de Faria, Nicole chegou a um ponto raro: a partir de algo particular ela alçou o universal e faz uma bela homenagem ao seu pai. Com a vantagem que pode carregar a peça a qualquer espaço que deseje.

Impressiona também que na segunda-feira em que assisti à peça, tinha público espontâneo e um homem não conseguia nem levantar da cadeira depois que acabou: chorava copiosamente e emocionado. Provavelmente, o espetáculo o tocou em um local pessoal – e essa é a prova do que eu escrevi em cima: é universal!

Eu/Telma apesar de trazer a história de uma cuidadora de idosos que perdeu a mãe prematuramente e vive com seu pai, jardineiro tem leveza. É poético e tem uma doçura da personagem, uma afetividade pessoal de Nicole que transparece em cena.

Eu/Telma trata-se de fato de um trabalho autoral e tocante. A obra nos ensina que a arte só precisa de um sim para existir. E será feita com cuidado onde tiver espaço. A pesquisa, a verdade e a criatividade é o que um artista precisa!

FICHA TÉCNICA

Concepção geral e atuação: Nicole Marangoni

Provocações cênicas: Evinha Sampaio, Janaína Leite, Naiene Sanchez e Rhena de Faria

Iluminação: Yuri Cumer

Arte gráfica: Eramir Neto

Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

SERVIÇO

Eu/Telma, com Nicole Marangoni

Sala Atelier-Aliança Francesa – Rua Gen. Jardim, 182 – Vila Buarque

Temporada:  Entre os dias 2 e 30 de setembro, somente às segundas, às 21h.

Ingressos:  R$30 (inteira) e R$15 (meia-entrada)

Classificação: 14 anos

Duração: 50 minutos

Informações: (11) 3572-2379

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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