Crítica: Excepcional é uma boa palavra para definir “Inferno – Um Interlúdio Expressionista”

SÃO PAULO – O tecelão de personagens realistas, donas de camadas poéticas da mais elevada sensibilidade e pungência como Alma, Laura, Maggie, Blanche e tantas outras, dentro de uma tessitura mais social e política, Tennessee Williams serve de guia – com o texto Not About Nightingales, de 1938 (quando o autor tinha apenas 27 anos), cuja estreia mundial se deu em Londres (1998), sessenta anos depois de ter sido escrita e engavetada pelo autor de Um Bonde Chamado Desejo – para o excepcional Inferno – Um Interlúdio Expressionista, segundas e terças-feiras no Viga Espaço Cênico. Excepcional, como diria Jim, é uma boa palavra para definir a peça da Cia. Triptal.

Nos muitos significados do adjetivo que pode ser a palavra excepcional, “estar acima dos padrões considerados normais” conforma-se bem à multiplicidade de êxitos alcançados pela montagem de Inferno – Um Interlúdio Expressionista, a começar pela adaptação proposta pelo idealizador e diretor do espetáculo, André Garolli, que ao utilizar uma proposta metalinguística, além de deixar brechas para que os atores façam comentários, afastados do caractere do personagem que interpreta – inclusive aludindo a mudança temporal (anos 1930, em que se passa a peça, e dias atuais) –, embarcam os espectadores nessa viagem-encenação, alcançando, assim, intimidade, cumplicidade e reflexão sobre o que está em cena.

Conforme alerta o marinheiro Jack (Lucas Guerini, cuja dicção, compreensão do texto e vigor tornam o trabalho digno de aplausos especiais) “qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência” e, realmente, muitas são as coincidências entre os desmandos cometidos com a população carcerária de Inferno – Um Interlúdio Expressionista e o descaso com que as principais esferas governamentais apresentam aos mais desvalidos sociais. Questões como o modelo prisional, viciado pela corrupção e pela ineficácia de um sistema judiciário omisso aos apelos dos detentos, muito se assemelham com as tentativas de juízes se comportando como manipuladores de informações que assentem a sentença que premeditavam aplicar, ou se omitem quando desejam se fazer de míopes transferindo, assim, as decisões que deveriam ser de sua autoria, além, é claro, de colocar um espelho reflexivo nada agradável ao notarmos que os problemas da ficção refletem os nossos.

A peça de Tennessee Williams que deu origem à montagem da Cia. Triptal teve por base a tragédia que ocorreu numa penitenciária em Holmesburg, Pennsylvania, em 1938, e, em Inferno, referências aos campos de concentração nazistas – os guardas da prisão se assemelham aos oficiais da SS e o atroz castigo aplicado aos detentos assemelha-se aos “banhos” nas câmaras de gás –, além da cena final ser uma menção ao massacre do Carandiru, em que uma rebelião de detentos é silenciada por uma chacina de policiais.

Fabrício Pietro faz um vertical mergulho na abominável figura do diretor, alcançando nuances diversificadas que enriquecem os caracteres da personagem. Do manipulador corrupto ao pai e esposo exemplar, além do traço infantil e vingativo que justifica suas crueldades com o bordão de ter muita responsabilidade em manter o bom funcionamento do presídio. Outro traço bem evidenciado é a forma como trata Jim – um detento que é coagido a se tornar informante do que se passa entre os outros presidiários para o diretor – e Eva – a nova datilógrafa do presídio que, apesar de apontar as discrepâncias entre o valor notificado nas planilhas que datilografa e os gastos reais, para preservar seu emprego, acaba por fazer vistas grossas após ser ameaçada pelo diretor – são tratados como servos que devem atender seu Senhor ou serão castigados, como num sistema escravocrata.

Camila dos Anjos e Athos Magno, dão vida a Eva e Jim, respectivamente, que, de fato, se apaixonam na mesma medida em que revelam seu desconforto em relação ao diretor. Também é notável a interpretação de Fernando Vieira, que da vida à Buch, um presidiário que lidera os outros detentos, repleto de fé cênica e dicção perfeita, fato que está presente em quase todo o elenco.

A iluminação de Aline Santini aliada à arquitetura cênica de André Garolli e Cézar Rezende, dão ao pequeno espaço da sala principal do Viga uma dimensão ampla e bem dividida, promovendo momentos de rara beleza plástica no espetáculo.

A direção coesa e inventiva de André Garolli garante a ampla qualidade do espetáculo que merece um destacamento pela coragem de colocar em cena 40 atores num momento em que os elencos estão cada vez menores.

Ficha Técnica:

Inspirado no texto Not About Nightingales, de Tennessee Williams, dentro do projeto Homens À Deriva. Direção: André Garolli. Assistente de direção: Mônica Granndo. Elenco: Camila dos Anjos, Fernando Vieira, Fabrício Pietro, Athos Magno, Simone Rebeque e mais 36 atores. Produção: Cia. Triptal. Assistência de Produção Geral: Giulia Oliveira. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Projeto contemplado pelo Programa Municipal De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo 32ª Edição – 2018.

Serviço:

VIGA Espaço Cênico.

Rua Capote Valente,1323 –  Próximo ao metrô Sumaré. Telefone: (11) 3801-1843

Temporada: até 18 de fevereiro de 2020. Segundas e Terças às 21h.

Ingressos: R$ 40,00 (Inteira) e R$ 20,00 (Meia).

Duração: 100 Minutos. Classificação: 16 anos. Capacidade: 80 lugares

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.