CRÍTICA: “FUENTE OVEJUNA”

SÃO PAULO – Incluso no projeto que o Núcleo Sem Querer de Tentativas Teatrais está chamando de Trilogia da Taverna, Fuente Ovejuna é o aprofundamento natural desta pesquisa, iniciada com O Impostor Geral (2015). A investigação do coletivo, à primeira vista, é simples: encenar clássicos do teatro mundial dentro da instalação que ficou conhecida como Sala Taverna, do Viga Espaço Cênico. Um olhar mais atento, contudo, percebe outros pontos de tensão no trabalho do grupo.

Tanto em O Impostor quanto em Fuente, o trabalho dos atores gravita ao redor do estudo das máscaras. No anterior, o bufão ajudava a narrar a história clássica de um farsante que se passa por inspetor do governo para obter vantagens. Agora, a máscara expressiva é um dos pilares na história sobre um povoado que sofre nas mãos tiranas de um comendador, na Espanha dos Reis Católicos. Como se percebe pelas curtas sinopses, outro ponto focal no trabalho apresentado pelo coletivo até agora é a relação do homem com o poder, sobretudo nos seus maus usos.

Esta curiosa sobreposição de interesses (textos clássicos, pesquisa sobre máscaras, encenação a partir da instalação, investigação sobre política e ética) torna o trabalho do coletivo digno de atenção, nem que seja pela inventividade – embora, é claro, esse excesso de informação possa contribuir para o fracasso de uma montagem. Felizmente, não é o que acontece em Fuente Ovejuna, principalmente graças à direção firme de Juliano Barone, que equilibra com alguma graça a torrente de referências que anima a peça.

Das passagens que comprovam a boa mão de Barone, cabe apontar o uso de Lacrimosa, de Mozart, numa cena de violência na metade final do espetáculo. A escolha por utilizar a música para estabelecer a atmosfera de tragédia necessária é elegante por sugerir mais do que exibir – o que demonstra a confiança de Barone nas suas escolhas e na inteligência da plateia. A cena em que as mulheres aniquilam Guzmán também é interessante, ainda que a opção em coreografar algumas brigas em câmera lenta dilua um pouco o clima de barbárie solicitado pelo texto. Por mais que o recurso organize visualmente as ações simultâneas, ele também torna o caos ordenado demais, controlado demais, um freio na violência catártica à la As Bacantes, que parecia ser a progressão natural da cena.

O bom elenco mantém o trabalho afiado já apresentado no espetáculo anterior da companhia, com destaque para Juliane Arguello, Marieli Georgen, Priscilla Dieminger, Pipo Belloni e Marcus Veríssimo, jovens atores que se entregam com voracidade a um texto particularmente difícil, e apresentam interpretações espontâneas. A juventude do elenco é um ponto importante a se levar em conta: se às vezes algo se perde na técnica ou na ansiedade, isso é compensado por uma atuação fresca, orgânica, que casa bem com a leveza e a paixão do primeiro ato – afinal, o espetáculo trata também, em alguma medida, da perda da inocência, elemento reforçado pelos atores em cena.

Composta, até agora, por uma excelente comédia na figura de O Impostor Geral, onde o riso solto servia como crítica para a tendência que as pessoas têm em manipular o meio na busca de vantagens individuais; e pelo inventivo jogo dramático sobre os malefícios da passividade ante os abusos – “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada”, já disse Edmund Burke – neste Fuente Ovejuna, a Trilogia da Taverna demonstra o amadurecimento do coletivo não apenas no tocante à temática, mas também na lapidação de seus espetáculos. Se seguir esta tendência, o terceiro componente do tríptico será imperdível.

Ficha Técnica:

Direção Geral: Juliano Barone.
Texto: Lope de Vega.
Tradução e Adaptação: Marcos Daud.
Direção Musical: Wagner Passos.
Elenco: Alexandre Paes Leme, Dudu Oliveira, Gabriel Ferrara, Juliane Arguello, Marieli Goergen, Marcus Veríssimo, Monique Fraraccio, Pedro Casali, Pedro Monteiro, Pipo Belloni, Priscilla Dieminger, Robson Dasa e Thiago Azevedo.
Musicista: Lisi Andrade.
Técnico de Luz e Som: Rodrigo Holanda.
Treinamento em Máscara Expressiva: Joca Andreazza.
Direção de Movimento: Guryva Portela:
Confecção de Máscaras: Jair Correia.
Cenário / Figurino: Kleber Montanheiro.
Iluminação: Gabriele Souza, Jorge Leal e Kleber Montanheiro.
Adereços: Michele Rolandi e Tide Nascimento.
Cenotécnico: Evas Carretero.
Maquiagem: Gabriela Jovine.
Produção Geral: Tânia Reis.
Assistente de Produção: Daniela Duarte.

Serviço:

Viga Espaço Cênico
Rua Capote Valente, 1232
Sala Taverna
De 4 de março até 24 de junho. Sábados, às 17h.
Preço: 40,00
Duração: 100 min.
Classificação indicativa: 16 anos
Capacidade: 60 pessoas

 Por Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)