Crítica: Futebol, teatro e história em Muro de Arrimo

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

"Muro de Arrimo". Foto/Crédito: divulgação
“Muro de Arrimo”, com Fioravante Almeida (imagem). Foto/Crédito: Lenise Pinheiro/divulgação

SÃO PAULO – O espetáculo Muro de Arrimo fez sucesso nos anos 70. O monólogo que foi estrelado por Antonio Fagundes sob direção de Antônio Abujamra, voltou à cena paulistana quase como uma obra do destino, com encontros, semelhanças e, também, uma interessante adaptação com ar mais contemporâneo. A história trabalha em cima da paixão do brasileiro: o futebol e a Copa do Mundo. E a nova montagem traz a união do ator Fioravante Almeida (no papel do pedreiro Lucas) e Alexandre Borges na direção. Os dois e o autor da obra, não por coincidência, carregam parte das suas raízes artísticas do Teatro Oficina.

Além desse feliz encontro, outra semelhança: o texto de Carlos Queiróz Telles (1936 – 1993) conta a história de um operário que enquanto trabalha, espera pelo jogo da semifinal da Copa do mundo de 74: entre Brasil e Holanda. Naquele jogo perdemos de goleada. E o mesmo aconteceu neste ano. Só que dessa vez perdemos para a Alemanha e em casa.

Nesta montagem, em cartaz no Teatro Aliança Francesa, a história é a mesma criada por Queiróz Telles. As questões de um brasileiro que na espera pelo “jogo da sua vida” fala de família, dinheiro, opressão, trabalho, crenças e paixões como o futebol. Mas há também a mão inegável do diretor Alexandre Borges e as opções que fez para remontar Muro de Arrimo.  Há um andaime para o cenário  e o uso da facilidade que a tecnologia nos oferece, com a projeção de São Paulo de cima, por meio de um telão.  

A cenografia e as movimentações leves de Fioravante, com a projeção ao fundo, nos faz sentir assistir a cena do alto. O monólogo começa morno e cresce conforme identificamos a atualidade, com projeção de cenas dos jogos da Copa do Mundo de 2014.

Se o radinho de pilha – que o personagem usa para ouvir o jogo – nos transporta para certo passado, essas projeções e o cenário nos levam para o hoje, em um misto curioso. O operário, na voz e corpo de Fioravante, é trabalhado com naturalidade.  Não há exageros e firulas. O texto transpassa entre a comédia, a ansiedade, paixão e a concentração que o trabalho exige.

Um operário que busca de tijolo em tijolo seu sustento, sabe que não pode se dar o luxo de parar de trabalhar para assistir uma partida de futebol – mesmo que seja da seleção e em Copa do Mundo. No entanto, o futebol lhe dá alegria. Na contagem regressiva para o jogo, o operário arruma ânimo para terminar o muro que tinha que construir naquele dia. O futebol é esperança, mais do que paixão. E por isso, ele apostou parte do salário pelo jogo. Essa é uma realidade que vemos e vivemos muito no Brasil. Impossível sair indiferente ao espetáculo Muro de Arrimo.

Com trilha do cantor Otto e narração de Cléber Machado, o espetáculo tem seu pico de emoção no final, quando eles repetem a homenagem feita por Queiróz Telles a um operário, que deu origem a peça, ao morrer do coração em uma obra, depois da derrota do Brasil, em 1974. Para esta montagem, eles ainda acrescentaram ao texto uma homenagem aos operários que morreram nas obras dos estádios do Brasil. A morte de operários, aliás, tema pertinente a nossa sociedade, também é muito presente no espetáculo, ainda que tratado com humor e leveza.

Muro de Arrimo traz um sucesso dos anos 70 repaginado. É a história do Brasil, é a paixão pelo futebol e é sobre a vida de muitos brasileiros. A parceria de Fioravante, que também organizou uma exposição sobre o autor Queiróz Telles, e Alexandre Borges, que não só dirigiu mas está presente em quase todas as sessões da peça, de certa forma, transparece para o palco.

FICHA TÉCNICA:

Texto: Carlos Queiroz Telles
Direção: Alexandre Borges
Elenco: Fioravante Almeida
Produção: Camila Bevilacqua
Trilha Sonora: Otto
Luz: Guilherme Bonfanti
Cenário: Carila Matzenbacher
Direção de vídeo: Rubens Rewald e Laysa Diniz
Preparação Vocal:Madalena Bernardes
Preparação Corporal: Wolfegang Parnek
Fotos: Lenise Pinheiro
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara

SERVIÇO: 

LOCAL: Teatro Aliança Francesa, Rua General Jardim, 182 – Vila Buarque. 226 lugares+ 04 PNE. (Estacionamento conveniado em frente)

DATA: 31/10 até 30/11, (Sexta e sábado às 20h30 e domingo às 18h)

INFORMAÇÕES: 3017 5699 – r. 5602 e www.teatroaliancafrancesa.com.br

INGRESSOS: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada). Aceita todos os cartões.

VENDAS PELA INTERNET: www.ingressorapido.com

DURAÇÃO: 50 min

CLASSIFICAÇÃO: 12 anos

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!