CRÍTICA: GRUPO INTERNACIONAL DE TEATRO FAZ PALCO VIRAR VIDEOGAME NO FESTIVAL DE CURITIBA

Kyra Piscitelli*, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"HOUSE IN ASIA". Foto/crédito: divulgação
“HOUSE IN ASIA”. Foto/crédito: divulgação

 

CURITIBA – O teatro contemporâneo passou pelo Festival de Teatro de Curitiba pelas mãos dos catalães Agrupación Señor Serrano. Eles rejeitam a representação como teatro depois da chegada do cinema. O que eles fazem se não é representação? Constroem uma estética e uma trilha sonora com maquetes e artifícios tecnológicos de dar inveja em Hollywood e na Broadway. Se o que eles fazem é teatro, não sei. Mas é bom, tecnicamente e artisticamente. Só não cabe em rótulos. É arte. O espetáculo A House in Asia é parte disso.

E mesmo sendo contemporâneo e, por vezes, mirabolante tem crítica. E isso é um ponto importante, já que muitos teóricos pregam que a arte contemporânea é niilista de valores, e que a representação ganhou tanta força que a crítica da realidade não seria possível. O filósofo Jean Baudrillard, se vivo fosse, com seu niilismo da pós-modernidade, talvez pensasse ao assistir esses artistas que conseguiram reconstruir com maestria a angústia da guerra, fizeram da plateia jogadores de um videogame, que caçam os inimigos americanos e, juntos, se tornam cúmplices da solidão de ser um guerreiro que mata seu inimigo e precisa de outro para se manter. É a sociedade do medo, é a guerra contemporânea. É teatro sem atores. Os atores manipulam a tela, dão perspectiva à cena, que acontece como cinema e não no palco.

Sim, há representação, é verdade. Mas, há uma ironia com esse elemento da representação: somos todos cópias de algo, de uma ideologia, de uma nação. Representação, mas não sem crítica. Por meio da caçada dos EUA ao Osama Bin Laden, eles reconstroem cada detalhe. O espetáculo em inglês, com legendas em português, nos dá pista da onde estamos: um carro solitário (carro de maquete) dirige e no vídeo aparece um poste com o símbolo do McDonalds. É os Estados Unidos. Sem falar em Bin Laden, ou em exército americano, a Companhia nos conduz em um teatro de dimensões 3D. Em uma caçada de cópias, de bem e mal. De vencedores ou perdedores. No entanto, isso sem maniqueísmos. Todos como guerreiros, que buscam sobreviver no mundo em que o “medo” domina.

O diretor da Companhia Alex Serrano, talvez, não por acaso, nasceu em 11 de setembro. 11 de setembro, ele mesmo me disse, é também dia de festa em Barcelona. Ele que nunca teve aniversário, é formado em desenho industrial e trabalhou como publicitário, adquiriu esse fascínio pelo 11 de setembro, marca da nossa história contemporânea. E A House in Asia é expressão clara disso. Ali estão referências de suas antigas profissões e o teatro que ele acredita e faz desde 2007 na Agrupación Señor Serrano.

O espetáculo tem qualidade, é diferente e importante. Entretanto, há um erro de condução. O clima tenso a todo momento faz com que não haja um clímax. A sensação é de que várias vezes a encenação acabou. Mas, ela continua. Há uma quebra no final do espetáculo. Ainda assim, A House in Asia é essencialmente bom e, principalmente, impactante. Que venha o diferente, o novo!

Em tempo: eles que já se apresentaram em São Paulo antes do Festival, vão a Brasília em agosto. Mas, com outro espetáculo, que segundo Alex Serrano, traz iguais provocações – e tem, em menos intensidade, algo da sua obsessão com o 11 de setembro.

Assista o vídeo para ter uma pitada do que é esse grupo de Barcelona:

Acompanhe o grupo pelo site: http://www.srserrano.com/index.php/en/compania/compania

ACESSE A PROGRAMAÇÃO E AS NOTÍCIAS DO FESTIVAL DE CURITIBA EM: www.festivaldecuritiba.com.br

PRÓXIMAS APRESENTAÇÕES DO AGRUPACIÓN SEÑOR SERRANO NO BRASIL:

27 e 28/08 de 2015

Espetáculo: Brickman Brando Bubble Boom
Cena Contemporânea
Brasilia, Brasil
* Não há informações sobre o local.

*Kyra Piscitelli, editora assistente do Aplauso Brasil, viajou para Curitiba a convite do Festival.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!