CRÍTICA: GRUPO MINEIRO FAZ HISTÓRIA EM CURITIBA COM ‘DRUMMOND’ E ENCANTA

Kyra Piscitelli,* do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

"Drummond" de Grupo Mineiro lota teatro com mais de 600 lugares. Foto/crédito: divulgação
“Drummond” de Grupo Mineiro lota teatro com mais de 600 lugares. Foto/crédito: divulgação

CURITIBA – O Grupo Ponto de Partida, do interior de Minas Gerais, dá uma lição bonita de força e resistência ao conseguir chegar aos 35 anos, entrar no Festival de Curitiba na mostra oficial e com um espetáculo que carrega história. O teatro Bom Jesus foi, inclusive, pequeno para eles. O público lotou o espaço que tem capacidade para 658 pessoas. O enredo era a poesia do poeta que, não por acaso, é mineiro também. As poesias foram dividas por fases da vida: infância, adolescência, adulta e velhice. A montagem, já antiga, não está livre de falhas, mas encanta e merece respeito.

Com as personagens vestidas em roupas graciosas de época, a poesia é recitada como em um recorte de um álbum de família. Em Drummond o grupo atinge o ápice quando usa recursos simples e bem executados. Entre eles lanternas, fitas e tecidos coloridos. O trabalho corporal do grupo, aliado a uma trilha que também remete às novelas dos anos 20 e 30 encantam. A poesia No Meio do Caminho tem uma dinâmica incrível. Assim como E Agora José. As duas são grandes conhecidas do publico.

O pecado acontece nas poesias de tom mais político (de direitos humanos) como Mãos Dadas que é encenado no mesmo tom de “encanto”. Mas é essencialmente forte e nada otimista, visto que é uma chamada para o mundo. Período entre Guerras, Fascismo… E um mundo que precisava olhar para si. Drummont é multifacetado e por isso universal. Vai da piada, ao sexo. Do sexo ao político e social.

Ainda assim, a proposta do Grupo Ponto de Partida é bonita e por trazer trajes de época eximem os atores de descartarem belas poesias que não caberiam em um recorte universal.

Lotar um teatro em um Festival de Curitiba, o maior do Brasil. e ainda em tempos de pouco patrocínio e dificuldades econômicas, é mostrar que o teatro vive e tem força. E que a literatura nacional pode ser um bom enredo.

O grupo já anunciou que volta a Curitiba em maio, com outro espetáculo.

Hoje tem a última apresentação de Drummond, no Teatro Bom Jesus. Como é domingo, a sessão é às 19h.

Sinopse: Seguindo os rastros biográficos deixados por Carlos Drummond de Andrade em seus poemas, o Grupo Ponto de Partida criou um roteiro que compõe, da infância à velhice, de situações cotidianas a questões existencialistas, uma espécie de linha da vida – seja de Drummond ou de cada um de nós. Assim, ao dramatizar a palavra poética, o Grupo buscou aproximá-la ao máximo do público que se vê representado pela inteligência, humor, irreverência e profundidade do escritor. O espetáculo estreou em 1989, foi remontado 20 anos depois, em Itabira (cidade de Drummond), e, em 2015, volta aos palcos na retrospectiva que comemora os 35 anos do Ponto de Partida.

FICHA TÉCNICA:

Direção, concepção e dramaturgia: Regina Bertola

Texto: Carlos Drummond de Andrade

Figurino: Tereza Bruzzi e Alexandre Rousset

Iluminação: Rony Rodrigues

Trilha sonora: Claudia Valle, Eloísa Mendes, Fátima Jorge, Lido Loschi, Pablo Bertola e Regina Bertola

Sonoplastia: Pablo Bertola

Equipe de pesquisa: Ana Alice Souza, Cida Campos, Fátima Jorge e Regina Bertola

Fotografia: Rodrigo Daí

Design gráfico: Edson Brandão

Elenco: Ana Alice Souza, Carol Damasceno, Érica Elke, João Melo, Júlia Medeiros, Lido Loschi, Lourdes Araújo, Renato Neves, Ronaldo Pereira e Soraia Moraes

Facebook do Grupo: https://www.facebook.com/grupopontodepartida

Acompanhe o Festival de Teatro de Curitiba no site: www.festivaldecuritiba.com.br

*Kyra Piscitelli, editora assistente do Aplauso Brasil, viajou para Curitiba a convite do Festival.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!