SANTOS* – O Grupo XIX faz uma importante e belíssima ocupação na Vila Maria Zélia, uma antiga vila operária na Zona Leste de São Paulo. Por conhecer o trabalho do grupo, fui ver a primeira peça infantil deles, no MIRADA – Festival Ibero-americano de Artes cênicas de Santos. O curioso é que a vocação do grupo em se apropriar dos espaços é sem dúvida o melhor Hoje o Escuro vai Atrasar Para que possamos conversar.

Durante o MIRADA, o espetáculo vai se apresentar em dois espaços: Teatro Armênio Mendes e no SESC Santos. Onde assisti, no primeiro, um casarão histórico com cem anos de história, a experiência para crianças e adultos foi além do teatro. A casa foi explorada por completo. Algo como a celebração da arte e do tempo passado. História e teatro se fundiram ali, e ninguém poderia dizer, se não soubesse, que ali não era a casa do Grupo XIX.

Hoje o Escuro vai Atrasar Para que possamos conversar fala de intolerância. Luna, uma menina que era tida como lunática pelos colegas que sofria com gozações, some e dois amigos partem em uma jornada, com a plateia para encontrá-la. A narrativa ainda guarda mais um detalhe: crescidas numa aldeia, essas crianças não têm contato com os animais, que haviam desaparecido.

Em busca de Luna e em um encontro com a natureza, Janaína Leite, Juliana Sanches, Rodolfo Amorim, Ronaldo Serruya e Tarita de Souza conduzem a plateia por um passeio inesperado entre músicas infantis originais de Tarita de Souza e outras canções de domínio público. O espetáculo faz um importante convite para que as crianças dialoguem e questionem verdades e julgamentos.

De alguma forma, também fazem entender o teatro e o espaço onde estão habitando, o que é uma vocação inegável que o grupo consegue passar para o infantil. Quantas vezes repetimos o discurso que nos é dado? Ou julgamos o desconhecido sem ir em busca de? Com Bolas, lanternas, escadas, o público passa pelo palco e pela plateia. Pode ter contato com as duas perspectivas.

Hoje o Escuro vai Atrasar Para que possamos conversar é lição para adultos e crianças. É difícil dizer como será o espetáculo no SESC, mas no casarão evoca passado, presente e futuro numa mensagem importante a todos: em prol da coletividade e tolerância do diferente.

 

Ficha Técnica:

Criação: Grupo XIX de Teatro
Direção: Luiz Fernando Marques e Rodolfo Amorim
Dramaturgia (livremente inspirada na obra de Amòz Oz): Ronaldo Serruya
Atores-criadores: Janaína Leite, Juliana Sanches, Rodolfo Amorim, Ronaldo Serruya, Tarita de Souza
Trilha Sonora original: Tarita de Souza
Operação de luz: Dimitri Luppi Slavov
Operação de som: Rubens Adati
Contrarregra: Roberto Oliveira
Produção executiva: Cristiani Zonzini e Gabi Costa

*Kyra Piscitelli viajou a Santos a convite do MIRADA