SÃO PAULO – O espetáculo Guanabara Canibal, em cartaz no novíssimo SESC 24 de maio, é um jeito de mergulhar no passado para entender nossos caminhos. A última peça da trilogia sobre a história do Rio de Janeiro é um bom exemplo de como é possível olhar para o local e torna-se universal. A peça serve a todos os lugares em que minorias foram e são massacrados. de Aquela Cia., que assina o trabalho, brinda, também, o público com uma estética, trilha sonora e luz que encantam a quem aprecia um bom teatro.

A trilogia teve início com as peças Cara de Cavalo e Caranguejo Overdrive. A peça Guanabara Canibal será apresentada na Unidade de 20 de janeiro a 18 de fevereiro, com ingressos que vão de R$ 9 a R$ 30.

O nome da terceira peça, já dá a dica da temática. Guanabara é uma palavra de origem indígena, um povo dizimados com a chegada dos Europeus, no Rio de Janeiro e em outras tantas partes do mundo.

Em Guanabara Canibal o diretor Marco André Nunes e o dramaturgo Pedro Kosovski pesquisaram especificamente a Batalha de Uruçumirim, liderada por Mem de Sá. O texto inclui relatos impressionantes dos cronistas franceses Jean de Lery e André Thevet, que acompanharam a formação da colônia França-Antártica, no Rio de Janeiro, e o poema De Gestis Mendi de Saa (Feitos de Mem de Sá), do padre José de Anchieta.

O texto ironiza, no título e na história, o termo canibal, já que as tribos indígenas praticavam o ritual de canibalismo. Por vingança, a tribo capturava um rival e este passava a conviver com eles até o dia de sua execução, que era visto por todos como uma morte digna. Mas, europeus que chegaram impondo sua cultura e domínio, inclusive com matança, condenaram o canibalismo.

Nesse ponto, o espetáculo deixa várias questões sobre violência, guerra e seus lados. O que considerar? Quem considerar e  por quê? Havia cerca de oitenta aldeias indígenas no entorno da baía da Guanabara, uma população com milhares de habitantes. Mas, não há monumentos e museus para lembrar disso. Os donos da história e quem escolheu sua versão são os Mem de Sá, o Padre José de Anchieta e seus pares.

Se a encenação de Guanabara Canibal olha para o passado na pesquisa, o futuro também aparece ali. Afinal, a história serve para pensar o que vem por aí, o que gostaríamos de transformar e também verificar as mudanças e o que se pode fazer sobre isso.

O pequeno ator Zaion Salomão é esse futuro. Ele fica em parte da cena e fala de si mesmo e seus sonhos para a plateia, em um dos momentos mais emocionantes do espetáculo. Além de Samolão estão em cena também  Carolina Virguez, Matheus Macena, João Lucas Romero, Reinaldo Junior e Zaion Salomão.

Assim como nos espetáculos anteriores, a música dirigida por Felipe Storino, ao vivo, é potente e forte. O uso de tecnologia, aliado aos instrumentos, criam uma cena impressionante sobre a matança na baía da Guanabara. Feita com auxílio de iluminação e projeção lembra um efeito em 4D, em que pulsa a violência da nossa colonização e história.

Guanabara Canibal nos mostra o que o nosso passado esconde, trata da origem e, embora, não pegue leve, traz o respiro das possibilidades do futuro. Um importante relato cheio de teatralidade. Um relato local, que com a força a que chega, extrapola a sua realidade.

Aquela Cia.

Em 2005, Marco André Nunes e Pedro Kosovski fundaram a Aquela Cia. e vêm desenvolvendo, ao lado de outros artistas, uma linguagem cênica própria e uma dramaturgia inédita. Entre as encenações mais recentes, destacam-se “Outside: um musical noir” (2011), indicado aos prêmios Shell, APTR e Questão de Crítica; “Cara de Cavalo” (2012), indicado aos prêmios Shell Questão de Crítica; “Edypop” (2014), indicado aos prêmios Questão de Crítica e Cesgranrio e “Laio e Crísipo” e “Caranguejo Overdrive” premiado em diversas categorias do Shell, APTR, Cesgranrio e Questão de Crítica.

 

Ficha Técnica

Direção: Marco André Nunes

Texto: Pedro Kosovski

Atores: Carolina Virguez, Matheus Macena, Reinaldo Junior, João Lucas Romero e Zaion Salomão

Direção Musical: Felipe Storino

Iluminação: Renato Machado

Instalação Cênica: Marco André Nunes e Marcelo Marques

Figurino: Marcelo Marques

Visagismo: Joseff Cheslow

Produção Executiva: Aline Mohamad | MS Arte & Cultura

Produção Geral: Núcleo Corpo Rastreado

Idealização: Aquela Cia.

Serviço

Guanabara Canibal

Datas: 20 de janeiro a 18 de fevereiro de 2018

Horários: sextas, 21h; sábados, 18h e 21h (exceto dia 20, apenas às 21h), domingos, 18h, feriados: quinta, 25 de janeiro, 14h e 18h; 12 e 13 de fevereiro (segunda e terça), 18h.

Local: Teatro – 1º subsolo (216 lugares)

Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência); R$ 9 (credencial plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).

Duração: 80 minutos

Classificação: 14 anos

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)