CRÍTICA: “HAVEMOS DE AMANHECER” E A PALAVRA QUANDO SE TORNA CORPO

SÃO PAULO – Depois de cumprir temporada paulista em 2016, espetáculo que transporta poemas de Drummond para o palco encerra sua carreira no Viga Espaço Cênico no próximo domingo, 25, após ocupar o espaço por dois meses.

Inspirado em poemas de Carlos Drummond de Andrade, Havemos de Amanhecer, que tem direção e dramaturgia de João Paulo Lorenzon (que também integra o elenco) utiliza a poesia como detonadora de imagens e se apropria da dança, do teatro e da música para dar conta da atmosfera lúdica que tenta estabelecer. Tendo principalmente O Elefante e A Máquina do Mundo como base, a peça sugere reflexões sobre o amor, a sexualidade, a inocência e a morte, dando margem para que o espectador organize por si só o desfile de imagens e encontre significados particulares no caleidoscópio que se apresenta.

Se a ideia de transformar os poemas em material cênico é boa e o resultado é essencialmente bem-acabado, há de se apontar que existe certo desequilíbrio entre o que é dito e o que é dançado. É de se esperar que, eventualmente, num trabalho inspirado por poesia, ela seja declamada se não inteira, pelo menos em partes, e que a palavra seja investigada de diversas maneiras (pesquisando sua repetição, seu ritmo, seus múltiplos significados, as formas de decompô-la, as sensações que ela pode suscitar etc.) e isso se torne um jogo proposto. Contudo, embora não seja necessariamente insatisfatória, a parte dedicada à palavra declamada e ouvida tem menos potência do que a parcela do espetáculo em que o poema se torna verbo no corpo das bailarinas que compõem o resto do elenco.

Não se trata de falta de habilidade, técnica ou presença de Lorenzon, o maior responsável pela declamação em Havemos de Amanhecer. Dedicado, ele se apropria dos poemas com garra e os apresenta com dignidade – e dentro das escolhas do artista, sempre que ele opta pela concisão gestual, tudo ganha mais força, sobretudo devido ao contraste com o resto do elenco que se encarrega de dançar a palavra. Ainda assim, embora baseado no poema escrito, o espetáculo parece se sair melhor quando extrapola a palavra e se torna pura fruição visual.

Fortemente inspiradas em Pina Bausch (o peso dos corpos e sua negociação com a gravidade, os vetores, a espontaneidade do movimento), mas também flertando com a capoeira e o parkour, as dançarinas que fazem contraponto a Lorenzon lidam com a palavra de outro jeito, e estabelecem um diálogo com o espectador por vias mais subjetivas, não-racionais, e por isso mesmo mais potentes dentro da estrutura proposta pelo espetáculo. Apoiadas pela linda luz de Robson Bessa, pelo cenário e pela recorrente imagem do elefante (seja nas máscaras elaboradas por Steve Wintercroft, seja pelo mamute que o elenco eventualmente manipula), elas instauram uma atmosfera onírica e absurda, de uma lógica particular, que a necessidade declamatória do espetáculo às vezes tende a racionalizar ou ilustrar.

Não é um problema, naturalmente: a palavra funciona como espécie de totem, de guia pelo espetáculo e é uma escolha consciente da equipe criativa. Mas ainda fica a curiosidade de onde o espetáculo conseguiria chegar se radicalizasse sua pesquisa sobre a palavra, se tentasse pôr o poema em cena sem necessariamente declama-lo. Potencial existe, como se nota pela movimentação, pelo cenário, pela luz, pela música, pelos adereços e pelos demais elementos de Havemos de Amanhecer que se criam a partir da obra de Drummond sem se encerrar nela. Mas, novamente, isso é mais uma curiosidade despertada pela linguagem do espetáculo do que um defeito do mesmo.

Ao fim e ao cabo, Havemos de Amanhecer se mantém como um espetáculo visualmente interessante (embora a roupa de elefante destoe do resto da estética) sobre – e de certa forma para – a palavra e a poesia.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

HAVEMOS DE AMANHECER
Direção e dramaturgia: João Paulo Lorenzon
Supervisão literária e dramatúrgica: Davi Arrigucci Júnior
Inspiração: Alexandre Mate
Elenco: Agnes Rumi, Érika Caroline, Fernanda Chuquer, João Paulo Lorenzon, Larissa Terada, Lisandro Leite,  Mariane Wegmann e Michele Mattos
Música original: Marcelo Pellegrini
Produção musical: Surdina
Montagem de som: Adriano Ignacio e Ronaldo Fiuza
Desenho de luz: Robson Bessa
Operação de som e luz: Jorge Leal
Cenário: Cia Espaço Mágico. Mateus Fiorentino e Isis Mara Angrisani
Escultura de mamute: Agnes Rumi, Fernanda Chuquer, Lisandro Leite e Rodrigo Biondi
Design de máscara: Steve Wintercroft
Elefanta colorido: Miriam Ikeda
Figurino: Cia Espaço Mágico e Gabriela Cherubini
Cabelo: Patricio Lima
Produção: Cia Espaço Mágico e Érika Caroline
Comunicação Visual: Lisandro Leite
Fotografia: Maurizio Mancioli 

Serviço
Até 25 de junho. Sábados às 21h e domingos às 19h.
Ingressos: R$ 60,00 e R$30,00 (maiores de 60 anos, estudantes, professores da rede pública de ensino com comprovante)
Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323. Pinheiros.

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