Crítica: História, teatro, ficção e realidade em “O Encontro – Malcolm X e Martin Luther King Jr”

SÃO PAULO – Um Teatro Anchieta, no SESC Consolação cheio. Abarrotado. Pessoas – na fila de espera – ansiavam por uma sobra de ingresso. A peça era O Encontro – Malcolm X e Martin Luther King Jr., que fez curta temporada de 2 semanas, até 11 de agosto. Essa foi a primeira vez que o histórico espaço abrigou uma montagem com apenas atores negros em cena. Este também foi o ano em que a atriz, diretora e escritora Luh Maza, que é trans e negra, dirigiu no Theatro Municipal uma cena e fez história ao lado de mulheres trans. Naruna Costa, atriz e diretora, foi a primeira mulher a ganhar um troféu da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) por uma peça sob a sua batente. O século é 21 e o ano de 2019 mostra que temos o que celebrar, mas que a igualdade é também obstinação constante, seja de gênero ou raça.

O Encontro – Malcolm X e Martin Luther King Jr mostra as diferentes ideias, atuações e estratégias dos dois maiores líderes negros de todos os tempos. A premissa é um encontro que nunca ocorreu, num hotel no bairro Harlem. Mais do que a questão racial, o espetáculo traz diferenças religiosas, história e coloca em questão algo caro aos nossos tempos: o diálogo! A guerra ou a paz, ou existe um meio do caminho?

O texto americano é segurado extremamente no diálogo. E embora a presença de certa ironia seja óbvia, o clima de cordialidade compõe a cena. E se o público espera um arranca rabo, as palavras são as que cortam em cena.  É curioso imaginar que a energia de Malcolm X, interpretado por Izak Dahora, e  a energia de Martin Luther King Jr., feito por Rodrigo França, dê lugar a essas personalidades que assumiram papéis públicos, mas quem é que pode imaginar na intimidade como seriam?

A trilha ao vivo diverte e faz respirar a plateia. Sucessos da música negra americana roubam a cena e fazem parte – de alguma maneira – dessa reinvindicação de lugar necessária e que se consome no palco. Pena uma temporada curta, que tem tomado conta da cena paulistana e brasileira – em tempos de cortes de verba.

Um espetáculo limpo e simples em todos os aspectos. O foco? As perguntas do texto traduzido e adaptado por Rogério Côrrea. Da boca dos personagens ficam claro seus posicionamentos e fatos históricos que ainda perduram. Sem assumir um lado e em uma ode pelos direitos de todos. Se o teatro é exercício de imaginação a partir da realidade, O Encontro – Malcolm X e Martin Luther King Jr é exemplo disso.

 

Texto – Jeff Stetson

Tradução e adaptação – Rogério Côrrea

Direção – Isaac Bernat

Elenco – Drayson Menezzes, Izak Dahora e Rodrigo França

Músicos – Caio Nunes e Luíza Loroza

Direção Musical – Serjão Loroza

Assistência de Direção – Luíza Loroza

Assistência de Direção Musical – João Felipe Loroza

Orientação Científica – Lourenço Cardoso

Cenário – Dóris Rollemberg

Figurinos – Desirée Bastos

Fotos – Julio Ricardo

Vídeos – Caleidoskópica Produções – ClaraEyer e Elea Mercúrio

Programação Visual – Raquel Alvarenga

Idealização – Aline Mohamad e Isaac Bernat

Produção e Realização – Corpo Rastreado e MS Arte & Cultura

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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