CRÍTICA: “HOTEL MARIANA” E A POSSIBILIDADE DE TORNAR O REAL POÉTICO

SÃO PAULO – Baseado no rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, espetáculo lança mão dos procedimentos do teatro verbatim para levar ao palco os depoimentos de alguns dos sobreviventes. A temporada segue na Estação Satyros até 10 de julho, de sábado a segunda.

Segundo sua definição nos dicionários, “verbatim”, palavra de origem latina, significa “literalmente”, “com as mesmas palavras” ou “que reproduz com exatidão”. É, de certa forma, um elogio à pureza da transcrição ou da transmissão,  a fim de garantir que a mensagem original siga inalterada.

Transposto para as artes do palco, o teatro verbatim é um braço do teatro documentário onde o(s) discurso(s) da(s) pessoa(s) documentada(s) deve(m) ser encenado(s), se não ipsis litteris, pelo menos com o mínimo possível de influência ou edição dramatúrgica, podendo dar voz àqueles que, por um motivo ou outro, não a tem.

Embora não seja necessariamente recente – é possível localizar alguns experimentos formais com a linguagem no trabalho de Peter Weiss nos anos 1960, inspirado pelas reflexões de Erwin Piscator no final dos anos 1920, e há quem aponte que suas origens sejam ainda mais antigas – o teatro documentário tem ganhado considerável visibilidade nas últimas décadas, em palcos ao redor do globo, sobretudo graças à sua natureza social e política e à possibilidade de tornar poéticas questões urgentes de determinado grupo ou local.

Construído segundo as diretrizes do verbatim, Hotel Mariana é um espetáculo que se baseia nas entrevistas realizadas pelo pesquisador Munir Pedrosa com moradores dos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, pouco tempo após o rompimento da barragem de rejeito de minérios de Fundão, Mariana-MG, ocorrido em novembro de 2015.

A partir do depoimento de cerca de quarenta entrevistados, Pedrosa e o diretor Herbert Bianchi compõem um coral que tenta dar conta do ocorrido, com dez atores em cena (Pedrosa incluso) reproduzindo os discursos dos locais, com foco maior nas palavras, quase sem movimentação, interação ou qualquer outro ruído que distraia a plateia da mensagem a ser transmitida. Se esta opção pode se revelar um procedimento repetitivo e, portanto, esvaziador do poder dos depoimentos, a boa direção de Bianchi e as sutis edições dramatúrgicas conferem algum dinamismo à encenação, ao mesmo tempo em que dão espaço para o trabalho dos atores – operando aqui como veículo de uma mensagem, e fugindo tanto quanto possível da construção de tipos ou personagens.

Naturalmente, causa certo estranhamento nos primeiros minutos de espetáculo ver o elenco todo sentado, se movendo pouco, e repetindo um depoimento que é reproduzido nos fones de ouvido usados pelos atores ao longo da sessão – e o fato de os fones serem visíveis e os depoimentos serem às vezes audíveis, propõe novas camadas de entendimento do todo, num hábil jogo de expor o documento e a teatralidade simultaneamente.

Esse estranhamento faz sentido dentro das regras do verbatim: é necessário lembrar aos espectadores que não se trata de uma obra ficcional, da mesma forma que é importante que os atores repitam as palavras do depoimento tão logo as ouçam nos fones, para que não tenham tempo de formular qualquer psicologismo ou de injetar qualquer intenção ou objetivo pessoais, mantendo-se (de novo, tanto quanto possível) apenas como canais de emissão de determinado relato. É, de certo modo, a antítese do trabalho do ator, acostumado a injetar a si mesmo, suas impressões e opiniões a um papel ficcional.

Operando nessa interseção entre documental e encenado, espontâneo e ensaiado, o elenco consegue não cair no raso ou reducionista, mimetizando ritmos, melodias, tiques e outras idiossincrasias de seus documentados sem cair no caricatural. Repito, há alguma estranheza em ver alguém jovem interpretando (na falta de uma palavra melhor) alguém velho, ou em ver alguém que precisa rapidamente mudar de registro ao passar de um documentado para outro – e nesses momentos, vê-se incomodamente o ator se sobrepor ao documentado – mas parece tratar-se mais de uma escolha consciente da equipe criativa do que inabilidade ou insensibilidade.

Conseguindo aliar a crueza dos depoimentos, com o experimentalismo da atuação e os bons figurinos de Bia Pieralti e Carol Reissman e do cenário de Herbert Bianchi, Hotel Mariana propõe um novo olhar, pela via da poética, para o ocorrido.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

Hotel Mariana

Idealização e pesquisa: Munir Pedrosa
Direção: Herbert Bianchi
Edição: Herbert Bianchi e Munir Pedrosa
Assistente de direção: Letícia Rocha
Elenco: Angela Barros, Bruno Feldman, Clarissa Drebtchinsky, Fani Feldman, Isabel Setti, Lucy Ramos, Marcelo Zorzeto, Munir Pedrosa, Rita Batata, Rodrigo Caetano
Designer de luz: Rodrigo Caetano
Cenário: Herbert Bianchi
Cenotécnico: Marcelo Maffei
Figurinos: Bia Piaretti e Carol Reissman
Acervo: David Parizotti
Produção executiva e direção de produção: Munir Pedrosa
Apoio: Greenpeace e Oficinas Culturais do Estado de São Paulo
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio
Realização: Governo do Estado de São Paulo

Serviço:
De 6 de maio a 10 de julho. Sábados e segundas, às 20h. Domingos, às 18h.
Estação Satyros. Praça Franklin Roosevelt, 134. Consolação, São Paulo. Ingressos: Sábados e domingos R$ 30,00 ou R$ 15,00 (meia). Segundas-feiras, gratuito.

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