CRÍTICA: INTOLERÂNCIA ENTRE PALESTINA E ISRAEL É TRAZIDA PARA O PALCO COM TRAMA DE CLICHÊS

Kyra Piscitelli,* do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

“Post Scriptum” é uma das estreias do Festival de Curitiba. Foto/crédito: divulgação
“Post Scriptum” é uma das estreias do Festival de Curitiba. Foto/crédito: divulgação

 

CURITIBA – O espetáculo Post Scriptum fez sua estreia nacional, ontem (26), no Teatro Paiol. A Companhia Teatral Arnesto trabalha uma discussão que precisa ganhar as ruas efetivamente: a intolerância e o radicalismo do pensamento. O autor e diretor do espetáculo Samir Yazbek imprime, com esta montagem, uma marca ao convidar os espectadores a um tema que o toca e movimenta sua arte. A questão da Palestina e Israel, os lados e os argumentos de ambas as partes são o tema central da trama, que também nos situa no Brasil – um Brasil de imigrantes como os Libaneses, personagens dessa história.

O estilista e ator Fause Haten, filho de imigrantes libaneses, assina o figurino, cenografia e compõe o elenco da peça ao lado de Helio Cicero, Daniela Duarte e Pedro Augusto Monteiro. Fause e Samir conhecem bem a razão de trazer o tema à cena. Mas, os buracos que Post Scriptum apresenta, espero que pela ocasião da estreia, enfraquecem a trama que se faz tão necessária. Os silêncios prolongados não se justificam. Não funcionam. O cenário sombrio é o ponto de maior impacto do espetáculo que poderia ter mais potencial, ir além do velho recurso de se usar uma história de amor proibida para atingir o clímax.

O cenário de “ruína” se contrapõe a tecnologia, com um computador em cena e o uso de Skype para comunicação. Esses elementos nos transportam para o hoje, uma história contemporânea. Mas, os diálogos entre as personagens de Daniela Duarte  e Helio Cicero, que fazem marido e mulher, surgem para relembrar que quando se fala de Palestina, o passado é ainda o mesmo triste presente da guerra.

O que realmente não funciona em Post Scriptum  é o pretenso mistério feito em torno do pai, que desaparecido é dado como morto, mas paira como fantasma nas ideologias e ações das personagens. A trama realmente se desenvolve em torno dos filhos desse casal e os mistérios que guardam em si, como um relacionamento amoroso entre a personagem de Pedro Augusto Monteiro com a atriz Fernanda Zaborowsky – que faz participação especial. Fause Haten, como primogênito misterioso, também trava uma batalha geracional com seu irmão da ficção.

Com tudo, Samir e Fause devem insistir em mostrar a cultura que trazem como legado. Falar do imigrante, sair dos estereótipos e, principalmente, levantar a bandeira da tolerância. Há quem queira ver o diálogo morto, mas o teatro deve trabalhar para que a tolerância viva e que todos os lados tenham voz. Teatro é lugar da democracia.

Produção nota 10
A produtora do espetáculo merece um registro e os parabéns. Ontem, um casal chegou, com ingressos, acompanhados de seus filhos: os dois – uma menina e um menino entre 11 e 12 anos. Ao saber de tal fato, a produtora se dirigiu à família para conversar sobre o conteúdo do espetáculo, indicado para a partir de 14 anos. A atitude é rara e vale nota.

Post Scriptum faz a última apresentação no Festival, dia 27 ( sexta), às 21h. Foram duas apresentações. Mas para acompanhar o Festival ou assistir espetáculos, acesse: www.festivaldecuritiba.com.br.

Post Scriptum

GÊNERO: DRAMA

CLASSIFICAÇÃO: 14 ANOS

DURAÇÃO: 70 MINUTOS

APRESENTAÇÕES

TEATRO PAIOL

26/03 21:00

27/03 21:00

*Kyra Piscitelli, editora assistente do Aplauso Brasil, viajou para Curitiba a convite do Festival.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!