CRÍTICA: IRONIA PÓSTUMA NA VIVA INTERPRETAÇÃO DE MARCOS DAMIGO

SÃO PAULO – “Com a pena da galhofa…” e quase sem a “…tinta da melancolia” – veja bem, isso é um elogio, jamais a cobrança de que algo tenha faltado –, as Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis transformada em solo musical cômico-fantástico por Regina Galdino, revela o impecável trabalho de Marcos Damigo.

Em cartaz até 29 de setembro no Teatro Eva Herz,  o ator, ao dar vida ao narrador-defunto, utiliza-se de poucos objetos de cena e muito de seu domínio corporal e vocal para narrar a obra. Com minuciosos gestos, com densidades e ritmos preocupados em diferenciar cada uma de suas falas – afinal ele fala as palavras de nosso autor maior da nossa língua – , com irônia vivaz estampada em seu rosto, a plateia se torna cúmplice do personagem que levanta de seu caixão para narrar as peripécias de sua vida.

Entre outras coisas que fala, são hilárias as descrições de suas paixões e de seu “caso” com Virgilia. Outro ponto peculiar, reside em seu “ganha-pão” como servidor público e seu desejo em tornar-se Ministro, mesmo duvidando de sua capacidade para desempenhar tal função, que dá a dimensão de que os problemas políticos desde o século XIX ainda não foram superados.

Regina Galdino assina a direção da montagem que celebra 20 anos da encenação anterior, a qual também dirigiu, e não faz concessões para o riso fácil e “truques” facilitadores que dariam efeito certeiro, antes trilha o caminho de “montadora” dos recursos que o ator oferece. A bossa-nova escolhida como tema em um determinado momento, além de um inteligente recurso cômico ao momento, também o é uma ironia ao próprio gênero musical.

Por essas e outras, recomendo que os amantes do bom teatro não percam o espetáculo.

FICHA TÉCNICA

Elenco: Marcos Damigo. Direção e Adaptação de Texto: Regina Galdino. Música Original: Mário Manga. Direção Musical, Arranjos e Trilha Sonora: Pedro Paulo Bogossian. Figurino: Fábio Namatame. Coreografia: Marcos Damigo.Consultoria de Movimento: Roberto Alencar. Iluminação e Cenografia: Regina Galdino. Execução Cenográfica: Luis Rossi. Fotos: Lucas Brandão. Realização: Oasis Empreendimentos Artísticos.

SERVIÇO

TEATRO EVA HERZ: Livraria Cultura/Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – Bela Vista, São Paulo.
De 20 de julho a 29 de setembro, quintas e sextas, às 21h. No feriado de 7 de setembro, às 18h.
Duração: 1h20m. Classificação etária: 14 anos. Gênero: Comédia musical. Lotação da sala: 167 lugares.
Ingressos: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia)
O teatro tem estacionamento, acessibilidade para pessoas com deficiência e ar condicionado.
Telefone: (11) 3170-4059.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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