RIO DE JANEIRO – Recentemente fui convidada para participar de uma mesa redonda sobre mídia corporativa e midiativismo na Escola de Comunicação da Universidade do Rio de Janeiro, a UERJ. A mesa era composta por 4 convidados e um mediador. Eu era a única mulher, além de ser a única que não era da área de comunicação. Em certo momento eu e as estudantes do laboratório percebemos que estava havendo um silenciamento da minha fala. Um debatedor começou a tentar a diminuir minha opinião de forma acintosa, ao mesmo tempo em que o microfone não chegava a mim. Dessa forma não conseguia rebater as críticas que eram feitas às minhas colocações e, quando o fiz, fui desrespeitosamente interrompida por um daqueles homens ali presentes. O que se deu em seguida foi, ato contínuo, a interrupção,pelas estudantes, do debate. Elas tomaram o microfone e denunciaram como o machismo estava se dando ali, na prática, ao vivo. Foi um ato político, didático e de resistência. O machismo é uma cultura tão forte em nossa sociedade, está tão naturalizado nela, que é difícil até para nós, mulheres,percebermos quando estamos sendo vítimas dele.

Dessa experiência parti,como espectadora, para assistir um espetáculo em que o tema era o pertencimento ao gênero feminino, da existência à resistência nos dias atuais. O trabalho abordava muitas questões do universo da luta das mulheres por vez e voz, mas o mais potente – tanto em forma como em conteúdo – era como a peça abordava o silenciamento de nossas vozes.Isso vai funcionar de alguma forma, do Grupo Barka, que fez promissora temporada no Oi Futuro, possuía uma ficha técnica toda assinada por mulheres. O trabalho se apresentava de cara com uma forte carga questionadora sobre o que é ser mulher na sociedade em que vivemos. Como se dá ser parte do gênero feminino numa estrutura patriarcal tão forte e opressiva. Os textos, curtos e diretos, falavam de comportamento, dor, medo, expectativas e futuro.

A temática mais forte era a dosilenciamento constante da mulher, sob diversos aspectos, materializado em cena no pouco uso da palavra e com cenas bastante físicas. Durante a maior parte do espetáculo asatrizes proferiam um discurso forte a partir de gestos, de seus corpos dilatados em cena em posições e grunhidos que remetem ao aprisionamento em que nós, mulheres, ainda estamos vivendo em pleno século XXI. A fala era tão pouco usada que dava até uma sensação de falta, de certo incômodo para uma expectação mais acostumada ao discurso falado no teatro. Mas é justamente esse incômodo do vazio de palavras, do discurso pouco falado, que, propositadamente possibilita a dimensão cênica do que é e como se dá o silenciamento da mulhera partir da perspectiva das artistas envolvidas no projeto do Grupo Barka.

Durante um pouco mais de uma hora vemos de várias formas essa estetização do silenciamento opressor da vontade da mulher: a obrigação da maternidade, a obrigação da beleza e da juventude física, a obrigação de seguir normas de comportamento. Não há escolha para nós, devemos seguir essa ordem natural sem questionar ou rebelar – se.

O desejo de estancar esse silenciamento é visto em cena quando as atrizes simulam quadros que remetem a fotos históricas de mulheres nas ruas em luta por igualdade de direitos com os homens. Ou quando simulam um momento de catarse coletiva em que essas atrizes jogam tudo para o alto, os elementos de cena, a cenografia, a terra ali derramada no palco, e convocam as mulheres da plateia a gritar, como uma forma de libertação, como forma de rasgarmos esse tecido colocado em nossas bocas.

O trabalho do grupo barka, liderado pela diretora Rubia Rodrigues e pela atriz e dramaturga Dominique Arantes já saiu de cartaz, mas espero que volte. É muito importante mais um trabalho que aponta essas questões do feminino na sociedade e, especialmente, sobre a opressão por nós sofrida. É uma luta que não cessa nem cessará, já que a estrutura patriarcal é quase monolítica e o machismo naturalizado faz nos mesmas, mulheres, sermos silenciadas, silenciosas e opressoras de nossas iguais (e de nós). Além disso o espetáculo, enquanto objeto, possui uma característica de inacabamento, de rascunho muito potente e bonito. É muito forte essa ideia em cena de borrão. Assim como a luta, que é apenas um rascunha ainda, a cena e os textos em Isso vai funcionar de alguma forma deixam vácuos para o espectador preencher com a consciência e com a imagem da realidade. Essa sensação de rascunho cênico transparece no trabalho o tempo todo por ser um objeto que carrega como característica a marca de várias mulheres envolvidas dentro e fora de cena e, a voz de cada uma ali escutada, com espaço, sem silenciamento. Um trabalho coletivo feito por vozes dissonantes falando de um mesmo ser mulher no mundo. É muito bonito, é muito potente e muito forte. É um grito de libertação.

 

Ficha técnica:

Texto: Dominique Arantes, Renata Mizhari, Daniele AvilaSmall e Keli Freitas

Direção: Rubia Rodrigues, Cristina Moura, Denise Stutz e Inez Viana

Elenco: Amanda Mirásci, Dominique Arantes, Larissa Siqueira, Mariana Nunes e Vilma Melo

Cenário: Mina Quental

Figurino: Luiza Fardim

Iluminação: Daniela Sanchez

Direção de trilha sonora: Letícia Novaes

Fotos e registros videográficos: Elisa Mendes

Assessoria de imprensa: Bianca Senna – Astrolábio Comunicação

Realização: Grupo Barka e Travessia Produções

Crítica de teatro correspondente do Rio de Janeiro.

DâmarisGrün, do Apaluso Brasil (damarisgrun@gmail.com)