CRÍTICA: “JACQUELINE”, MÚSICA PARA VER

Jacqueline - SESC - 01_12_16Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

São Paulo – Pesquisando as possibilidades da música em cena, Rafael Gomes escreve e dirige espetáculo que acompanha a vida da violoncelista Jacqueline Du Pré. O espetáculo, em cartaz no Sesc Consolação, encerra a temporada no dia 18, mas retorna do hiato em 2017 para cumprir carreira de 06 a 29 de janeiro, de sexta a domingo.

Sinestesia, substantivo feminino. 1. Psic. Relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso, mas intimamente ligadas na aparência (p.ex., determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar uma certa cor etc.). 2. Estl. Cruzamento de sensações, associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão.

Baseado na vida da violoncelista Jacqueline Du Pré (1945 – 1987) e usando como norte o Concerto Para Violoncelo e Orquestra do compositor Edward Elgar (1857 – 1934), o espetáculo escrito e dirigido por Rafael Gomes se propõe não apenas a ser uma biografia, mas sim uma investigação sobre a interseção ente teatro e música. Mais do que falar da ascensão e queda de Du Pré, o que Jacqueline faz é sobrepor o Concerto de Elgar à vida da musicista, tornando-se uma espécie de partitura atuada.

Talvez, então, “norte” não seja a palavra mais precisa para definir a presença do trabalho de Elgar na dramaturgia e encenação. Mais do que nortear o projeto, o Concerto serve de terreno, contraponto, base e moldura para o espetáculo. No palco, o drama é detonado tanto pelas experiências vividas por Du Pré quanto pelas variações de andamento e intensidade da composição de Elgar.

Da mesma maneira, o trabalho dos atores surge da colisão/fusão/simbiose entre partitura e texto. Com movimentos marcados, precisos, com uma velocidade e um tônus típicos da dança, e com uma voz de ritmo e musicalidade muito particulares, os atores cumprem função de instrumentistas e instrumentos numa orquestra regida em prol de uma fruição artística outra, narrando a jornada de Du Pré como se ela fosse indissociável da música – e talvez de fato seja.

Perceba-se que não se trata de um musical, pois a música não está (audivelmente) presente o tempo todo, nem há momentos precisos na dramaturgia para o início de determinada canção. É mais como se Jacqueline fosse todo em bel canto, mas com uma musicalidade muito particular.

Com este espetáculo, Gomes também parece encerrar uma trilogia acidental sobre mulheres esfarrapadas. A Blanche de Um Bonde Chamado Desejo, a Joana de Gota D’Água [a seco] e agora a protagonista homônima de Jacqueline apresentam ecos umas das outras, todas mulheres cujas forças surgem das fragilidades, das inseguranças e dos medos, e todas destinadas a finais horrendos. Além disso, a música ocupa um papel de destaque nos espetáculos, ora auxiliando no andamento da trama, ora expondo subtextos. Se a tragédia de Joana era cantada com maestria por Laila Garin em Gota D’Água, a derrocada de Blanche era comentada por La Llorona, de Beirut e Sinnerman na voz de Nina Simone. Agora, o triste violoncelo de Du Pré funciona não como texto, nem só como trilha, mas como monólogo interno dos personagens.

O cenário também merece atenção, por ecoar as parcerias anteriores entre André Cortez e Rafael Gomes. Se em Bonde ele reforçava a claustrofobia do apartamento de Stella e Stanley, e em Gota ele proporcionava um jogo de aproximações e distanciamentos entre Jasão e Joana, aqui ele se propõe a brincar de novo com o multifuncional e com aquilo que é mais sugerido do que estabelecido. O desdobramento de estruturas de madeira evoca desde um piano a uma lápide, passando por camarins, casas e a prisão à qual a protagonista é submetida no final de sua vida. Em dado momento, o cenário também pontua o distanciamento e o esburacamento na relação entre Jacqueline e sua irmã, criando ilhas – ou placas tectônicas, como diz o texto – que isolam e desestabilizam os personagens.

Colocando-se como regente numa orquestra de talentos diversos, Gomes entrega um trabalho que colide teatro e música, para apresentar as faíscas que surgem do choque.

JACQUELINE
Texto e Direção: Rafael Gomes
Elenco: Natália Lage, Arieta Corrêa, Daniel Costa e Fabricio Licursi
Cenário: André Cortez
Iluminação: Wagner Antonio
Figurino: Fause Haten
Direção de Movimento: Renata Melo
Assessoria de Imprensa: Daniela Bustos, Beth Gallo e Thais Peres – Morente Forte Comunicações
Projeto Gráfico e Foto: Laura Del Rey
Assistência de Direção: Marco Barreto
Assistência de Produção: Barbara Santos
Produção Executiva: Egberto Simões e Katia Placiano
Produção: Cia Empório de Teatro Sortido e Morente Forte Produções Teatrais (Selma Morente e Célia Forte)

Serviço
Até 18 de dezembro de 2016 e de 06 a 29 de janeiro de 2017.
Sextas e sábados, às 21h. Domingos às 18h.
Ingressos R$ 40,00, R$20,00 (meia) e R$12,00 (credencial Sesc)
Sesc Consolação – Teatro Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245. Consolação

 

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