CRÍTICA: “JACY” RETRATA BRASIL E PERSONAGEM EM MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES TEATRAIS

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Prestes a comemorar dez anos de carreira, Grupo Carmin, de Natal, reestreia em São Paulo seu premiado espetáculo. A peça narra a história real de Jacy, cuja frasqueira com alguns pertences foi encontrada numa rua, e o esforço do coletivo em descobrir quem foi essa mulher. A temporada segue no Sesc Pinheiros até 18 de fevereiro.

Uma ideia simplista e equivocada é a de que é possível contar a história de alguém desconsiderando seu contexto. Nesta visão, a história de X seria apenas a história de X, e não também a história de todo seu meio. Ao se tentar recortar o personagem do entorno, transforma-se um indivíduo múltiplo em um arremedo de pessoa, esvaziando suas conexões com o todo, deixando-o ilhado, à deriva.

A força de Jacy, premiado espetáculo do Grupo Carmin, surge justamente do movimento de partir do micro para falar do macro. Inspirado pelo encontro com uma frasqueira jogada na rua, o coletivo traça um dedicado estudo sobre a vida de uma senhora em meio às turbulências pelas quais passou o país, desde a década de 1920 até os primeiros anos do século XXI, passando pela Segunda Guerra Mundial e outros eventos significativos da história brasileira.

Jacy não é, portanto, apenas sobre a história desta mulher, mas também sobre a história de Natal, sobre a história do Brasil e sobre a história da feitura do próprio espetáculo. No palco, intercalam-se cenas inspiradas nas passagens da vida da documentada, reconstituições de entrevistas feitas com aqueles que conheceram-na, exibição de memorabilia, e depoimentos dos próprios atores sobre os percalços de desfazer os nós e transformar toda a pesquisa em material cênico.

Se o esforçado trabalho historiográfico de reconstruir uma pessoa a partir de seus pertences impressiona, as soluções cênicas encontradas pelo coletivo completam com louvor o resto da empreitada. Com dez anos de estrada, o grupo mostra-se maduro e tem momentos muito inspirados: o uso de bonecos, jogos de tabuleiro, fotografias e do desenho feito ao vivo e projetado sobre os atores estabelece uma atmosfera lúdica que só faz bem ao espetáculo. Também vale a pena citar a delicadeza de alguns momentos, como as folhas ao vento, o uso do giz no fundo preto e a bonita cena da morte de Luiz.

Em Jacy, narra-se a vida de alguém através das diversas possibilidades do teatro. Reflete-se sobre a vida de alguém (e sobre todo seu contexto, naturalmente) através do teatro. Preenche-se as lacunas da vida de uma pessoa com teatro. Não é pouca coisa, embora no palco tudo pareça despojado, simples, fácil de ter sido feito – e isso é uma qualidade e tanto.

Inserindo esta Jacy na interseção entre verdade e ficção, o Grupo Carmin ainda dá margem para a reflexão sobre a construção da realidade e as dramaturgias que influenciam nossa percepção do mundo. Muita coisa surge em cena a partir de um exercício de imaginação, aproximação ou potencialização. A história da mulher passa pelo filtro dos dramaturgos, dos atores, do diretor e também pelo filtro do espectador que pode absorvê-la como uma metáfora para o país, como estudo sobre os pequenos detalhes que formam uma vida, como uma reflexão sobre os rastros que deixamos para trás, como um exercício fiel de documentação e reconstituição, como alguma coisa no meio do caminho ou como uma possibilidade completamente nova.

Partir de um começo tão específico e potencializá-lo a ponto de abranger as mudanças pelas quais o país passou em cerca de noventa anos;  conseguir encontrar um  bom equilíbrio entre verdade e invenção; propor elegantes respostas visuais e dramatúrgicas para inquietações contundentes como tempo, história e morte; e convidar o espectador para dar sentido ao todo confirma a habilidade do Grupo Carmin em contar boas histórias. Ficcionais ou não.

Jacy

Textos: Pablo Capistrano e Iracema Macedo

Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano

Direção: Henrique Fontes

Assistente de direção: Lenilton Teixeira

Consultoria: Marcio Abreu

Atores: Quitéria Kelly e Henrique Fontes

Videomaker: Pedro Fiúza

Designer de luz: Ronaldo Costa

Direção artística e cenografia: Mathieu Duvignaud

Trilha sonora original: Luiz Gadelha e Simona Talma

Coordenação de produção: Quitéria Kelly

Assistente de produção e desenhista: Daniel Torres

Designer gráfico: Vitor Bezerra

Fotógrafo: Vlademir Alexandre
Serviço
Até 18 de fevereiro. De quinta-feira a sábado, às 20h30
Ingressos: R$ 25,00 (inteira). R$ 12,50 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência). R$ 7,50 (credencial plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Sesc Pinheiros Rua Paes Leme, 195.

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