Crítica: José Possi Neto encena comédia glamorosa dos anos 1930

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

VIDAS PRIVADAS
VIDAS PRIVADAS

Após cinco anos, casal divorciado se reencontra em situação inusitada: eles estão em lua de mel com seus novos pares e o amor renasce; eles fogem para Paris, o que provoca uma série de confusões: essa é a trama de Vidas Privadas, do inglês Noel Coward

SÃO PAULO – Nem parece que o texto do dramaturgo britânico Noël Coward foi escrito há 85 anos: Vidas Privadas, em cartaz no Teatro Jaraguá é uma comédia requintada e com o glamour dos anos 1930, mas a atualidade do texto atrai e deixa o espectador muito atento às divertidas e inusitadas situações dos dois casais retratados em cena.

Com produção de João Federici, que há quatro anos luta para montar a peça no país, e direção de José Possi Neto, a trama traz dois casais: o primeiro Amanda e Elyot, interpretados por Lavínia Pannunzio e José Roberto Jardim, divorciados há cinco anos e que se reencontram num hotel onde estão em lua de mel, já com seus novos cônjuges, Victor e Sybil (Daniel Alvim e Maria Helena Chira).

Por ironia do destino, este encontro reacende o fogo da paixão entre eles, que resolvem fugir para Paris deixando para trás os novos companheiros. É óbvio que Victor e Sybil não deixam por menos e saem em busca dos fujões, provocando momentos engraçados.

O primeiro ato acontece nas duas sacadas das suítes do hotel em que os dois casais, coincidentemente, escolhem para passar a lua de mel. Elyot e Sybil estão se preparando para jantar e, ao invés de demonstrações de carinho, eles vivem suas primeiras e intensas discussões em razão de ciúmes.

Na sequência, na sacada ao lado, Amanda e Victor também reproduzem o mesmo clima dos vizinhos: os atritos entre eles surgem em função de inveja e ciúme de Victor do ex-marido de Amanda.

Após as brigas, Elyot e Amanda ficam sozinhos em suas suítes e, ao saírem para a sacada, o reencontro é inevitável. A princípio eles se assustam com a coincidência, mas com o desenrolar da conversa ambos admitem que ainda se amam e resolvem deixar tudo para trás e retomar suas vidas em Paris.

VIDAS PRIVADAS
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O segundo ato — sem intervalo com o público assistindo a rápida e criativa mudança de cenário — se passa numa luxuosa sala de um apartamento parisiense: o novo/velho casal está em êxtase, mas o passado não está longe e as brigas voltam com o mesma intensidade com que o prazer os uniu novamente. Para completar, Victor e Sybil, também enamorados, chegam para resolver ou complicar ainda mais a situação.

“Noël Coward com esta peça zomba e ri das convenções sociais, disseca a relação amorosa expondo os personagens ao ridículo extremo que a entrega apaixonada pode nos levar. Com uma discussão de valores morais criando situações absurdas, o texto é muito inteligente,” afirma Possi Neto.

Além da contemporaneidade do texto de Coward (que ganhou tradução e adaptação de Marcos Renaux), Vidas Privadas se destaca pelo cenário criativo e de requinte de Marco Lima, o figurino deslumbrante de Fabio Namatame e iluminação de Wagner Freire.

No entanto, a interpretação de Lavínia Pannunzio e José Roberto Jardim enaltece a montagem: a cena do reencontro de seus personagens é linda, ambos cantando e envolvendo a plateia. Lavínia traz Amanda para os dias atuais e incita o espectador a refletir sobre a relação afetiva dos nossos dias.

Não perca, a temporada se estende até o início de agosto.

Roteiro:

Vidas Privadas. Texto: Nöel Coward. Tradução: Marcos Renaux. Direção: José Possi Neto. Elenco: Lavínia Pannunzio, José Roberto Jardim, Daniel Alvim e Maria Helena Chira. Figurino: Fábio Namatame. Iluminação: Wagner Freire. Cenário: Marco Lima. Trilha sonora: Tunica e Aline Meyer. Caracterização: Westerley Dornellas. Fotografia: Fábio Messias. Produção: João Federici.

Serviço:
Teatro Jaraguá (266 lugares), Rua Martins Fontes, 71, tel. (11) 3255-4380. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta e domingo R$ 50,00 (R$ 25,00 meia-entrada) e sábado R$ 60,00 (R$ 30,00 meia-entrada). Bilheteria: Ingressos no local. Compra online: Ingresso Rápido – www.ingressorapido.com.br. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Temporada: até 03 de agosto.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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