SANTOS* – O MIRADA – Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos trouxe para abertura um espetáculo primoroso colombiano, o país homenageado da edição. Evocando temas sociais em uma narrativa crescente e surpreendente, vemos em cena bons atores e um cenário potente. Assim é Labio de Liebre do Teatro Petra.

Labio de Liebre tem texto e direção de Fabio Rubiano Orjuela, fundador do grupo Teatro Petra. Além de divulgar e dialogar com a uma dramaturgia genuína latina, o espetáculo usa do realismo fantástico, gênero literário do nobel colombiano Gabriel García Márquez, para tratar tortura, ditadura, violência contra a mulher, preconceito e outros temas com propriedade e tão perto da nossa realidade violenta, de democracia frágil e machista. A miscelânea de temas pesados incluídos no espetáculo não o deixam pesado e aí está o bom uso do realismo fantástico, que recria e mescla as realidades para os trazer, muitas vezes, a dureza da sociedade.

Labio de Liebre prende o espectador com uma narrativa crescente que são acompanhados pelo cenário e luz que se transformam junto com a história. O espetáculo começa com um senhor vendo TV, enquanto neva lá fora e o público acompanha cabeças de animais no lado de fora do cenário dessa casa. Logo, a casa começa a receber a visita de personagens que formam uma família com mãe dois filhos, um de lábio leporino – que nomeia a peça -, e uma filha.

Aos poucos, os animais, antes na parte externa também entram na casa e a neve dá lugar a um grande bosque e floresta. O público descobre, então, que o senhor do início está isolado numa cidade distante, depois de ser condenado por tortura em seu país. A família em cena, vem assombrá-lo para buscar seus restos mortais. Nesse embate entre o torturador e seu torturado, em meio a natureza da onde todos viemos, o espetáculo coloca no palco temas esperados e inesperados.

Labio de Liebre questiona de que lado a justiça está, fala de ordens vigentes e qual delas você seguiria ou não. Coloca tabus sociais como o aborto e abuso sexual de pais por filhas, envoltos a uma mãe omissa porque o certo é “obedecer ao marido”. Na outra ponta, o torturador se justifica ao dizer que “obedecia a um Estado”. Todos obedecem uma instituição ou a algo sempre que existe uma posição ou decisão a ser tomada e é isso que o espetáculo põe em xeque de forma natural e orgânica.

Falar da luz de Adélio Leiva e Leonardo Murcia e do cenário de Henry Alarcón sem falar da trilha sonora de Camilo Sanabria seria injusto. A música também é fundamental para o clima criado à peça. Do pacato ao realismo fantástico. Labio de Liebre é um espetáculo completo e com elenco coeso, que acompanha as reviravoltas da história.

Labio de Liebre traz a Colômbia e consegue ser universal. Resgata para a cena um gênero do país e tem uma dramaturgia notável aos grandes. Uma série de porradas sociais que regurgita na garganta em um viva ao teatro latino-americano.

O Teatro Petra trouxe duas obras ao Festival que acaba dia 15 de setembro. Labios de Liebre e Quando Explodem as Paredes (Cuando Estallan las Paredes) , o último trabalho do grupo.

Para conhecer a programação, acesse o site do Festival

*Kyra Piscitelli viajou a Santos a convite do MIRADA