CRÍTICA: “LIMBO” OU VERSOS SOBRE A DESORIENTAÇÃO

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Alguém já disse que quando morremos nossa vida passa como um filme diante de nossos olhos. Ninguém disse, contudo, que seria um filme coerente. A premissa de Limbo, primeiro trabalho do Coletivo de Heteronômios, escrita e dirigida por Alexandre França, resvala nessa ideia, tentando propor uma (in)coerência a partir do caos, do absurdo e da subversão de significados e significantes.

Existem dois totens fundamentais na dramaturgia que orientarão o desenrolar (embora “desenrolar” implique causalidade e temporalidade, coisas das quais a dramaturgia parece querer fugir ou, pelo menos, distorcer) da história: o nome “Guilherme” e o câncer. Estes dois elementos serão os detonadores dos eventos no palco, embora não exista, propositalmente, cronologia ou conflitos. O texto parece, na verdade, interessado em estabelecer uma atmosfera de desorientação e ressignificação constante dos elementos que compõem a trama, a fim de inserir a plateia no limbo que dá nome ao espetáculo.

Pode-se intuir o básico: em algum momento deste não-tempo proposto, houve um Guilherme que perdeu a luta contra o câncer e a proximidade da morte o fez questionar sua identidade e seu meio a partir destas duas referências primordiais, sua vida (“Guilherme”) e o fim dela (“câncer”). Estilhaçando essa premissa, a dramaturgia cria um universo que também é orientado por essas duas forças gravitacionais: todos são ou querem ser Guilherme – e o não-ser Guilherme também põe alguma ordem nas coisas – assim como todos querem ter ou têm câncer.

No limbo distorcido proposto, há espaço para criticar a espetacularização, o fetichismo e o descarte do sofrimento, a efemeridade das relações e a sugestão breve de um debate sobre quem sofre mais: o enfermo ou seus entes queridos.

Se a dramaturgia se sustenta bem, a partir de sua proposta e dentro de sua lógica particular, falta mais radicalização para levar a investigação adiante. O limbo (portanto, um não-lugar em um não-tempo) estabelecido ora funciona bem ao desorientar a plateia e negar a ela qualquer elemento concreto a partir do qual pode-se encontrar coerência e ordem no todo, ora parece preso demais na dinâmica câncer-guilherme, oferecendo respostas racionais numa dramaturgia que se interessa pelo aleatório e pelo imponderável. O próprio programa da peça, entregue antes do espetáculo, serve de certa forma como cartografia para a geografia do texto, oferecendo alguns caminhos de compreensão ao invés de deixar que a plateia trace trilhas particulares. Claro, ler o programa antes ou depois do espetáculo é uma escolha individual, e embora a apresentação exista emancipada da leitura do programa, ainda assim cabe provocar o grupo nesse sentido: é possível (e é interessante?) criar um espetáculo que radicalize na subversão da lógica e na orientação do espectador?

LIMBO
Direção: Alexandre França.
Elenco: Amanda Mantovani e Bruno Ribeiro.
Iluminação: Alexandre França e Erica Mitiko.
Cenário e figurino: Hélio Moreira Filho.
Desenho de som: L.P. Daniel.
Fotos de divulgação: Lena Sumizono.

Serviço
Até 04 de abril. Segundas e terças, às 21h
Ingressos: R$ 20,00 ou R$ 10,00 (meia)
Club Noir. Rua Augusta, 331.