CRÍTICA: “LOLA, A PIONEIRA”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – Monólogo dramático escrito e dirigido por Mário Goes acompanha a decadência e tentativa de reascensão de Lola, profissional da noite que precisa voltar a se vestir e portar como homem por questão de sobrevivência. O espetáculo fica em cartaz até 27 de janeiro no Teatro do Ator.

Uma senhora solitária mantém sua casa sempre pronta para receber a filha há muito desaparecida, que não veio ontem, nem antes, mas que pode retornar hoje, ou talvez um dia. Uma decadente figura da noite precisa voltar a se vestir e comportar como homem por necessidade, e enquanto sufoca seu verdadeiro eu, sonha com os dias de glória que podem voltar um dia.

Quem acompanha Alexia Twister na noite paulistana ou na Internet, no web reality show Academia de Drags, pode se surpreender com essa investida da drag queen no teatro dramático. Superado o estranhamento inicial, porém, as chances de que o espectador desfrute do espetáculo são boas.

Alexia se desdobra entre os papéis da senhora, de Lola e de sua contraparte masculina com desenvoltura. Naturalmente, monólogos são terrenos desafiadores para os intérpretes, ainda mais quando se propõe a construção de mais de um personagem – se corremos o risco de ler um papel de forma rasa, o perigo aumenta proporcionalmente a cada novo personagem que tentamos compor. Como é de se esperar, Alexia sai-se particularmente bem nas cenas em que dá voz à Lola, sobretudo na dublagem final, que flerta com a apoteose. Experiente, boa bailarina e carismática, Alexia consegue dar brilho à cafetina que dá nome ao espetáculo, especialmente quando precisa projetar sexualidade e charme.

Crispina, a velha senhora que parece surgida das páginas de Beckett, revela um cuidado maior na sua composição, mas é sempre bom investir na manutenção desses personagens mais desafiadores, mesmo num espetáculo de carreira extensa como esse. Fica nítido que Twister e o diretor e dramaturgo, Mário Goes, foram mais zelosos na criação dela – as motivações são mais sólidas, e o esforço para sua construção aparece mais: a voz tem mais técnica, a velocidade do gestual é diferente, os pontos de apoio e vetores do corpo parecem surgir de uma escolha consciente, e não arquétipo convencional de idosa com problemas de locomoção.  Faz sentido que esta seja a personagem que demonstre um estudo maior: ela é a que mais se afasta da figura jovem e extrovertida de Alexia, e o desafio precisa ser tratado com seriedade.

Contudo, talvez valha a pena repensar o modo como se dá a redistribuição do peso, sobretudo na parte inferior do corpo – às vezes a senhora parece pesada, e às vezes parece tão leve quanto a dançarina Lola – e o modo como são pensadas as restrições físicas da personagem – os pés dela parecem ágeis demais para uma senhora com dificuldades de locomoção. Faz sentido que essas dificuldades apareçam: com diversos números musicais espalhados pelo espetáculo, não é fácil sair desse estado e aterrar no corpo de uma idosa. Ainda assim, não faz mal chamar atenção para esses detalhes.

Os números musicais citados são uma parte fundamental de Lola, a Pioneira. Feito por uma drag e sobre uma corista, o espetáculo situa-se numa interessante interseção entre o teatro e um show. As canções são dubladas com um gestual dilatado e com uma expressividade intensa, elementos típicos dos shows de casas noturnas, onde os performers normalmente precisam ser expansivos para ser vistos por todo o público. Esta característica não é nem mérito nem demérito, mas dá à peça uma qualidade curiosa, pouco vista em palcos paulistanos.

As coreografias também possuem um acertado tom amargo, que combina com os personagens retratados. Não há redenção para Crispina, que desperdiça os últimos anos de vida esperando por alguém que nunca voltará; da mesma forma, há pouca chance de recomeço para Lola, que dificilmente reconquistará o posto de antigamente. A relação forçosa das duas também não parece render bons frutos: o amor, mesmo que venha, vem quase tarde demais. Assim, o número final acena para o otimismo da mesma forma que acena para a agonia que é lutar para tentar recuperar aquilo que se perdeu, sem garantias de sucesso.

Estabelecendo-se como um conto sobre vidas definidas pela perda – do amor, da juventude, do poder, do glamour –, Lola, a Pioneira é um passo corajoso de Twister, que exercita sua versatilidade.

 

Lola, a Pioneira
Com: Alexia Twister
Texto e direção: Mário Goes
Coreografias: Edson Simões
Produção: Cia dos Paradoxos

Serviço
Até 27 de janeiro. Sexta às 21h30
Ingressos: Pague o quanto puder
Teatro do Ator. Praça Franklin Roosevelt, 172. República.

 

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