RIO DE JANEIRO: “Qual homem que não quer subir na vida? Que não faria qualquer coisa pra ganhar mais dinheiro, mais fama, mais poder? Homem é bicho simples.” Joelma, em O animal que ronda, encenada pela Cia Dragão Voador, dá tom ao espetáculo que abre a temporada teatral carioca com uma releitura de Macbeth, carregada de som, fúria, crítica social e humor.

Na versão do diretor Joelson Gusson do texto de Willian Shakespeare, Macbeth não é um general de exército, mas um executivo de empreiteira, o Mac, que move um processo de reintegração de posse de uma área ocupada por uma favela para ali construir um condomínio de luxo. Ambientado na Barra da Tijuca, o espetáculo começa com Mac e PC/Banco – o homem do dinheiro –  chegando ao Charneca’s Dance Cub, um puteiro sujo e decadente da região da remoção. As bruxas que profetizam a ascensão de Macbeth aqui são personificadas por uma travesti que lê a mão do executivo e cinicamente diz o que ele quer ouvir. Assim como no texto original, Mac se impressiona e conta para sua ambiciosa esposa, Lady, que imediatamente traça o plano para concretizar a chegada do executivo ao posto mais alto da empresa.

A trama segue a ascensão e queda do casal golpista como no texto de Shakespeare. Generais, nobres cavalheiros, condes, oficiais e damas dão lugar a empresários, gerentes, herdeiros, prostitutas, socialites que humilham empregados e pobres servindo ricos de todas as maneiras possíveis.

O espetáculo trata de maneira escrachada esse mundo e a desigualdade social do Rio de Janeiro, onde empreiteiras promovem a remoção de favelas para construírem condomínios para os muito ricos. O tom de deboche da encenação aproxima o espectador para o absurdo dessa realidade e o faz pensar sobre isso.

Apesar desse clima de desolação social, injustiça, ambição e muita violência, o trabalho de Joelson Gusson é cheia de vida e deboche. O ambiente escuro e decadente que o diretor – que também assina a cenografia –- criou para a cena, cabe perfeitamente àquele (sub) mundo da trama.

Assim que entramos no espaço, observamos ao fundo uma cadeira de couro preta com design moderno, febre em catálogos de decoração das casas opulentas da Barra da Tijuca. Mais a frente há um tonel com bebidas e, chamando mais a atenção, está um palco redondo todo forrado com um tapete de retalhos de couro. É um espaço que equilibra o nosso olhar através desses três pontos e logo cria o clima obscuro e pesado que habitam aqueles personagens.

Essa cenografia ganha volume e evidência com a iluminação de Paulo Cesar Medeiros e os figurinos de Paula Stroher. A luz é carregada de intensidade de cabaré, de vermelho, de led e nos dá a sensação de tudo ser feito na calada da noite, nas sombras. As trocas na intensidade da luz são sutis. Os figurinos arrematam esse conjunto visual intenso da peça com exagero no brilho, no lurex, nas transparências e estampas de oncinha. Os homens usam fraques bem cortados ou joggings valorizando o físico atlético.

A direção musical de Luciano Moreira dialoga com esse clima. Há músicas inéditas compostas por ele e por Leonardo Corajo e executadas ao vivo. O Blues de Mac, interpretado por Catarina Saibro, faz um arremate de toda a sensação que nos chega da cena. Ela exala toda a decadência daqueles personagens através da letra, melodia e interpretação de Catarina, que é cheia de sensualidade e melancolia. Há também uma série de músicas populares como um samba de Alcione cantado por Luisa Friese – num show fora do tom e engraçado – e a apropriação de versos de Odair José, Rick e Renner ou Rosana, que dão humor ao espetáculo pois são referências que criam imediata simpatia por grande parte do público.

Esse clima também reverbera nas atuações. Todos os atores estão muito bem adequados ao tom debochado do texto e às referências ali dadas. Quanto mais buscam exagerar no tom canalha e não naturalista, melhor enxergamos o absurdo dessas relações de poder. Luciano Moreira talvez seja o que melhor materializa esse exagero na atuação, criando um empreiteiro de cadeira de rodas em tom histérico e canastra. Elio de Oliveira encarna três personagens e consegue dar uma cor diferente para cada um –  a puta vidente, o mordomo atrapalhado e a exuberante travesti francesa besuntada de óleo. São imagens fortes que prendem o olhar do público. Um pouco na contramão desse tom exagerado, Lucas Gouvêa e Leonardo Corajo, como Mac e PC/Banco, imprimem um registro mais dramático para os personagens.

A escolha por um caminho mais naturalista promove um tom enigmático desses personagens e, talvez, essa escolha se dê por uma vontade de expor a trajetória daquelas figuras e seus atos de forma que fique clara para o espectador, além de colocá-lo num lugar mais reflexivo. Acredito, porém, que essa escolha prejudica o ritmo da peça em alguns momentos, já que o escracho, o tom exagerado com falas ditas de forma mais artificial – destacando o que se diz e como diz – e os diálogos acelerados funcionam melhor.

O animal que ronda é o retrato do Rio de Janeiro nos dias de hoje. Uma cidade falida para os pobres , mas maravilhosa  para os ricos. Infestada de políticos golpistas e bandidos de colarinho branco que fazem o diabo para  manter privilégios e aumentar seu poder. É um retrato fiel dos nossos tempos.

SERVIÇO

O animal que ronda

Espaço Cultural Municipal Sergio Porto

Temporada: de 5 de janeiro a 5 de fevereiro

De sexta a segunda às 20h30min

Dâmaris Grün, especial para o Prêmio Aplauso Brasil (damarisgrun@gmail.com)