CRÍTICA: “MADAME SATÔ OU CANTO SOBRE A VIOLÊNCIA

SÃO PAULO – Madame Satã é uma das figuras mais simbólicas da história LGBT. Pobre, negro e homossexual, João Francisco dos Santos foi marginalizado por diversos aspectos e enfrentou de frente uma sociedade excludente – não sem certa controvérsia. Com uma extensa ficha criminal, que vai do assassinato de um policial até ultraje ao pudor, passando por agressões, furtos e recepções de furtos, Madame é uma figura polêmica inserida num meio onde o confronto com a lei era algo corriqueiro.

Como se supõe pelo nome, Madame Satã transporta para os palcos a história de seu personagem título sem, felizmente, parar por aí. O que o Grupo dos Dez faz é usar a história como detonador de reflexões sobre miséria, exclusão social, racismo, machismo, homo e transfobia, a situação carcerária no Brasil e as condições de vida de prostitutas e travestis nos séculos XX e XXI. Continuando a pesquisa do coletivo mineiro sobre a musicalidade brasileira transposta aos palcos e sobre a ancestralidade e corporeidade negra como elemento fundamental na construção dos espetáculos, a peça lança mão de seus recursos musicais não como simples estética ou como vitrine de técnicas vocais impressionantes, como se costuma ver em outras produções do gênero, sobretudo importadas. A música aqui é um dos alicerces principais da experiência cênica ao mesmo tempo em que é um elogio a manifestações artísticas e religiosas importantes para nossa identidade cultural.

Nota-se no espetáculo influências distintas como capoeira de angola, samba de roda, dança dos orixás e da cultura LGBT (a saber, os leques) para construir o corpo e a musicalidade do todo – havendo espaço até para uma eventual sarrada no ar. É mérito do preparador corporal Benjamin Abras e da diretora musical Bia Nogueira, cujos repertórios amplos garantem ao espetáculo variedade e complexidade.

É na parte musical, também, que o elenco se sai melhor. Cantores e intérpretes inspirados, todos conseguem injetar habilmente beleza e dramaticidade nas canções originais, que ora movem a trama a diante, ora a comentam. Contudo, há de se apontar a diferença entra canto e atuação: se a primeira é excelente durante toda a apresentação, a segunda é apenas correta em muitos momentos, enfraquecendo levemente a boa dramaturgia de Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo e minando, sobretudo, a pungência dos monólogos, cujo potencial incendiário de denúncia é mais atingido pela força das palavras do que da interpretação.  Assim que a atuação atingir o mesmo nível de qualidade do canto, porém, Madame Satã se tornará um espetáculo ainda mais poderoso.

Coordenando o todo, João das Neves e Rodrigo Jerônimo fazem o espetáculo transitar bem entre o dramático e o musical, e compõem imagens significativas que extrapolam a vida de Madame e falam do Brasil contemporâneo, seja ao falar da superpopulação carcerária e das dinâmicas de poder nesse sistema, seja pra falar da violência contra indivíduos marginalizados. O modo como o musical começa é fundamental nesse aspecto: a primeira cena se passa na rua, onde o elenco na pele de prostitutas e malandros ocupa a Praça da Sé e interage com as pessoas que passam pelos arredores, que percebem ou não que se trata de teatro. É tão impactante ver esse coletivo ocupando as ruas, jogando luz sobre tipos invisibilizados e se colocando verdadeiramente em risco, que por um segundo o espectador não entende se a ação que dá início à peça está ou não prevista na dramaturgia – e esse momento de suspensão, esses segundos em que não se sabe se a violência é ou não real dão a Madame Satã um poder de denúncia absurdo, afinal, por mais que esse assassinato tenha sido cenográfico, quantas pessoas nas mesmas condições não são perseguidas, violentadas e assassinadas todos os dias, há tanto tempo?

Leve, mas sabendo ser contundente quando necessário, Madame Satã é um espetáculo pertinente, além do prazer da fruição, pelas questões que levanta. Assistida dentro do mês do Orgulho LGBT, a peça ganha um alcance ainda maior e compõe um painel variado de montagens em cartaz atualmente que lidam com a violência iniciada pela afetividade.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

Madame Satã

Direção Geral: João das Neves e Rodrigo Jerônimo.
Direção Musical: Bia Nogueira.
Dramaturgia: Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo.
Supervisão da dramaturgia: João das Neves.
Elenco: Rodrigo Jerônimo, Bia Nogueira, Alcione Oliveira, Denilson Tourinho, Evandro Nunes, Juliene Lellis, Gabriel Coupe, Carla Gomes, Juhlia Santos, Kátia Aracelle, Nath Rodrigues, Rodrigo Ferrari, Thiago Amador, Junim Ribeiro e Sam Luca (com sua personagem Drag Queen Azzula).
Arranjo Musical: Alysson Salvador.
Preparação Rítmica: Daniel Guedes.
Preparação Corporal: Benjamin Abras.
Iluminação: João das Neves.
Técnico de Luz: Orlan Torres Nascimento.
Cabelo e maquiagem:Xisto Lopes.
Cenário e figurino: Cicero Miranda e Débora Alves.
Assistente de cenário e figurino: João Paulo Sousa e Rodrigo Ianni.
Confecção de sapatos: Helênio Lima.
Equipe de apoio figurino: Ana Maria Faleiro e Zilanda Barroso.
Cenotécnico: Italo Tadeu de Souza Silva.
Realização/Produção: Grupo dos Dez e Associação Campo das Vertentes.
Gestão e elaboração de projeto: Rodrigo Jerônimo.
Produção executiva: Bia Nogueira.
Assistente de Produção: Sam Luca e Rodrigo Ferrari.
Produtora Local: Telma Dias.
Coordenação de Comunicação: Ludmila Ribeiro.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli.
Criação Gráfica: Estúdio Lampejo.

SERVIÇO:
Até 18 de junho. De quinta a domingo, 19h15
Entrada franca (ingressos distribuídos a partir das 9h do dia da apresentação)
Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, Centro

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